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NO VOLANTE

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Léo Duarte

Do Ceará à comunicação popular
 

PRIMEIRA INFÂNCIA EM JUAZEIRO DO NORTE

Nasci em Juazeiro do Norte, no Ceará, no chão do Cariri. Minha infância foi na Lagoa Seca, área rural da cidade. Cresci entre romarias, rezas, histórias em volta da fogueira e brincadeiras de criança: bila, pega-pega, esconde-esconde, subir em árvore, correr no terreiro, fazer carrinho com sapato, transformar lata de sardinha e lata de óleo em brinquedo.

De vez em quando, no fim do ano ou em alguma data festiva, minhas irmãs, meu irmão e eu íamos até a Praça Padre Cícero, no centro da cidade. Lá, víamos reisados, lapinhas e outras manifestações populares. Gostávamos de ver aquelas pessoas com roupas coloridas, fitas, chapéus e enfeites, cantando, dançando e fazendo acrobacias. Naquele tempo, eu não entendia direito o significado daquilo tudo. Em alguns momentos, confesso, até sentia medo de certos personagens. Mas aquelas imagens ficaram guardadas na minha memória.

Sou filho de Dona Maria do Socorro, uma mulher forte, que criou praticamente sozinha a mim, meus irmãos e minhas irmãs. Sobre meu pai, dizem que se chama José Saturnino Filho, mas eu não tenho como confirmar, porque o nome dele não consta nos meus documentos. Tenho poucas lembranças dele. Ele deixou de nos visitar quando eu ainda era muito pequeno.

Cresci vendo minha mãe e minhas irmãs mais velhas lutarem para manter nossa casa de pé. Essa é uma das primeiras imagens que tenho da vida: mulheres trabalhando, cuidando de crianças, atravessando dificuldades e sustentando a família com uma força que eu só entenderia muito tempo depois.

TRABALHO INFANTIL E ESCOLA INTERROMPIDA

Aos sete anos, comecei a vender dindim e caju aos romeiros que passavam perto da minha casa. Eles vinham de muitos lugares, quase sempre em pau de arara, seguindo rumo ao Horto, onde fica a estátua de Padre Cícero, para pagar suas promessas. No caminho, paravam para descansar debaixo de uma grande árvore, à beira da estrada, perto de onde eu morava. Eu aproveitava aquele movimento para ganhar algum dinheiro.

Quando não era tempo de romaria, eu cuidava de carros na frente de uma pizzaria e de uma churrascaria. O dinheiro que eu conseguia era entregue à minha mãe. Era a forma que eu tinha de ajudar nas despesas de casa. Hoje eu sei o nome disso: trabalho infantil. Na época, eu não pensava nesses termos. Eu só sabia que precisava ajudar. Mas, olhando para trás, entendo que era a necessidade me colocando para assumir responsabilidade de adulto antes da hora.

Cursei apenas alguns meses da primeira série do ensino fundamental. Tenho poucas lembranças desse período, mas algumas imagens ficaram guardadas: a sala de aula, a professora ensinando as primeiras letras, a vontade de aprender e também a inquietação de uma criança que já vivia muitas dificuldades. A separação dos meus pais, as dificuldades materiais, a necessidade de trabalhar e os deslocamentos da família interromperam minha trajetória escolar logo no começo. Durante muito tempo, a escola ficou distante da minha vida.

Mesmo tendo estudado muito pouco, aprendi a ler e escrever por conta própria. A rua também foi minha escola. Quando eu caminhava por ela, observava placas, letreiros e outdoors. Ficava olhando aquelas palavras, tentando juntar as letras e reconhecer os sons, lembrando das poucas aulas que tinha tido. Eu lembrava da musiquinha que a professora cantava para nos ensinar o beabá: um B com A, B-A, BÁ; um B com I, B-I, BÍ.

Continuei fazendo isso com outras letras. Primeiro reconhecia sílabas, depois palavras, depois frases. Aos poucos, fui entendendo que aqueles sinais espalhados pela cidade também contavam histórias. Foi assim, entre a necessidade e a curiosidade, que comecei a ler o mundo pelas palavras.

CHEGADA A SÃO BERNARDO DO CAMPO

Em 1992, ainda menino, saí de Juazeiro do Norte com minha mãe e parte da minha família rumo a São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Como tantas famílias nordestinas, nós saímos do Ceará acreditando que em São Paulo haveria trabalho, futuro e uma vida melhor. A chegada mostrou outra coisa. Nos deparamos com aluguel caro, frio, preconceito, trabalho pesado, periferia, moradia precária, violência, saudade da terra de origem e muita dificuldade para se firmar na cidade.

Em São Bernardo, comecei a trabalhar como camelô na Praça Lauro Gomes, vendendo alho e chinelo em uma barraca. Logo na primeira semana, enfrentei uma enchente. Eu tinha acabado de chegar de um lugar de pouca chuva e, naquele dia, vi a água subir até o peito em pleno centro da cidade. Depois, isso aconteceu outras vezes.

Ao lado de onde eu trabalhava havia uma banca de jornal. O dono percebeu meu esforço, se simpatizou comigo e me chamou para trabalhar com ele. Eu aceitei. Na banca, o trabalho foi mais interessante, porque tive a oportunidade de exercitar minha leitura com jornais e revistas.

BANCA DE JORNAL, BALAS E RUA

Alguns garotos passavam pela banca para ver as notícias do Corinthians. Aos poucos, comecei a conversar com eles. Foi assim que soube que trabalhavam nos ônibus oferecendo balas e conseguiam ganhar mais dinheiro do que eu. Percebendo isso, passei a acompanhá-los e também entrei nessa lida. Depois, fui ampliando os lugares: ruas, faróis e portarias de fábrica.

Nesse período, também cuidei de carros e vivi momentos em situação de rua. Passei por fome, medo da abordagem policial, humilhação, frio, cansaço e pela sensação de estar sempre sendo empurrado para fora dos lugares.

Alguns meninos e meninas trabalhavam como nós, tentando conseguir algum dinheiro sem se render à criminalidade ou à prostituição. Outros já estavam muito comprometidos pelo uso de drogas, pelos conflitos familiares e pelas ameaças que sofriam na comunidade, e acabavam morando na rua. Na época, era muito comum ver alguns deles cheirando cola. Mas também tinha a galerinha que fazia pequenos furtos. Desses, a gente tinha muito medo, embora fingisse que não, porque na rua não era permitido baixar a guarda. Quando os víamos de longe, preferíamos correr antes que eles nos vissem, pois quase sempre tentavam tomar o nosso dinheiro.

Entre as meninas, algumas se vestiam com roupas masculinas para tentar se proteger dos assédios, dos abusos e também para impor algum respeito diante dos meninos que tentavam tomar o dinheiro delas. A rua era feita de risco, disputa e abandono. Não tinha nada de aventura nem de liberdade. Cada dia exigia cuidado, atenção e força para seguir a caminhada.

Ainda assim, existia algum companheirismo entre nós. Andar em grupo, ficar por perto uns dos outros e avisar quando surgia algum perigo eram formas de proteção que a gente aprendia na prática. A convivência naquele ambiente misturava tensão, parceria e sobrevivência.

Desse tempo, lembro de Marcelinho, Gralak, Serginho, Cosme, Birajara, Bugiganga, Júnior, Mônica, Leca, Érica e de tantos outros cujos nomes agora me escapam. Poucos continuam vivos. Muitos tiveram seus corpos mortos pelo caminho, mas continuam vivos em minhas vagas lembranças.

PROJETO MENINOS E MENINAS DE RUA

Em 1994, conheci o Projeto Meninos e Meninas de Rua. Cheguei buscando alimentação, apoio, material escolar e orientação. Encontrei muito mais. Ali, minha história foi respeitada; fui acolhido e reconhecido como sujeito de direitos.

No projeto comecei a entender que a minha história não era um caso isolado. A pobreza, a rua, o trabalho infantil e a violência contra crianças e adolescentes faziam parte de uma estrutura social que precisava ser enfrentada.

Com o tempo, fui me envolvendo nas atividades de forma mais intensa. Participei de oficinas, formações, encontros e debates sobre direitos. Aos poucos, minha participação foi ganhando outro lugar: comecei a ajudar na mobilização dos jovens, a contribuir nas atividades educativas e a atuar também como articulador comunitário. Essa mudança representou uma virada concreta na minha vida, porque eu passei a somar com o projeto de outra forma, participando da construção dos mesmos espaços que também foram importantes para a minha trajetória.

TENTATIVAS DE VOLTAR À ESCOLA

Também tentei retomar os estudos. Procurei o MOVA, Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos. Como eu não tinha documentação que comprovasse minha escolaridade, precisei passar por uma avaliação de classificação para saber em qual série poderia estudar. Nessa primeira prova, os educadores e educadoras avaliaram que meu conhecimento era compatível com a terceira série. Comecei a estudar, mas não consegui concluir por causa do trabalho.

Depois de um tempo, voltei a procurar a escola e passei novamente por uma avaliação. Dessa vez, fui classificado para a quarta série. Também tentei concluir essa etapa algumas vezes, mas não consegui manter a frequência. Mais adiante, fiz outra prova de classificação, dessa vez para ingressar na quinta série da EJA, Educação de Jovens e Adultos. Tentei concluir esse ciclo por três vezes, mas acabei desistindo novamente.

O problema nunca foi dificuldade para aprender. Quando conseguia frequentar as aulas, eu acompanhava bem o conteúdo. O mais difícil era manter a rotina. Eu precisava trabalhar, resolver questões da vida adulta e lidar com responsabilidades que não esperavam o horário da escola. Além disso, depois de tantos anos entrando e saindo da sala de aula, fui perdendo a paciência com aquele formato. Ficar sentado por horas, seguir uma sequência regular de estudos e permanecer até o fim de cada etapa se tornou cada vez mais difícil.

Com o tempo, minha relação com a escola foi mudando. Nessas tentativas de retorno, eu já não chegava movido pela mesma curiosidade da infância. Eu sabia que estudar era importante, mas a vontade se misturava com cansaço, cobrança e frustração. O mais difícil não era acompanhar o conteúdo. Era criar rotina, permanecer, cumprir horários e sustentar um ritmo de estudo que minha vida nunca tinha permitido manter por muito tempo.

BRASÍLIA E O ENCONTRO NACIONAL

Em 1995, participei do 4º Encontro do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, em Brasília. Com o lema “Quero educação para ser cidadão”, a atividade reunia crianças, adolescentes, educadores, educadoras e militantes de várias partes do Brasil. O Movimento havia sido uma das forças importantes na mobilização pela aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente e seguia denunciando a violência, a exclusão e a falta de políticas públicas para a infância pobre, especialmente para quem vivia nas ruas ou em situação de vulnerabilidade social.

Foi nesse encontro que conheci Maria da Cruz. Ela vinha de uma trajetória nordestina, popular e de participação social. Embora sua vida também não tenha sido fácil, Maria tinha uma relação mais firme com os estudos e já trazia uma experiência de formação no Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, iniciada ainda em Teresina, no Piauí.

Depois daquele breve contato, seguimos por caminhos próximos, cada um em seu território. Maria continuou buscando nos estudos e na participação social um caminho de construção da própria vida. Eu segui mais ligado à rua, ao trabalho, ao Projeto Meninos e Meninas de Rua e à defesa dos direitos de crianças e adolescentes, ainda tentando encontrar um lugar possível entre a sobrevivência e a militância.

A FOTOGRAFIA ENTRA NA MINHA VIDA

Meu primeiro contato com a fotografia aconteceu ainda na adolescência. Eu tinha 17 anos quando Jan Pedro, educador social, percebeu meu interesse pelas imagens. Aos poucos, ele foi me ensinando o essencial: observar a luz, escolher o enquadramento, esperar o momento certo e clicar. Com ele, comecei a entender que uma foto podia mostrar uma realidade, provocar uma reflexão e dizer algo sobre o mundo em que a gente vive. Jan já desencarnou, mas permanece na minha memória pela forma como me apresentou esse universo. Foi com ele que comecei a compreender que fotografar não era só apertar um botão. A câmera podia revelar realidades que muita gente preferia não enxergar e denunciar as desigualdades vividas por crianças, trabalhadores e famílias pobres.

Naquele período, fui tema de uma reportagem da Folha de S.Paulo sobre pessoas autodidatas. Como eu tinha aprendido a ler e escrever fora da escola, fui escolhido como um dos personagens da matéria.

Foi então que ele me entregou três rolos de filme e me incentivou a fotografar. Com aqueles filmes, saí registrando cenas que faziam parte do meu cotidiano: crianças nas ruas, trabalhadores, periferias, escadarias, moradias precárias e marcas da desigualdade espalhadas pela cidade. Eu fotografava lugares e pessoas que não estavam distantes da minha própria vida. Eram realidades que eu conhecia de perto.

O fotógrafo Paulo Giandalia veio fazer as imagens para ilustrar a reportagem. Durante a conversa com ele e com o jornalista, contei que gostava de fotografar e que sonhava em seguir esse caminho. Paulo me perguntou se eu já tinha uma câmera. Respondi que ainda não, mas que estava perto de completar 18 anos e pretendia comprar uma no crediário assim que pudesse.

Alguns dias depois, consegui comprar minha primeira câmera fotográfica, uma Pentax ESPIO 738, parcelada em seis vezes. Eu não tinha certeza de que conseguiria pagar as parcelas, mas resolvi assumir aquele risco. Com a câmera nas mãos, eu via uma oportunidade de escrever outra história para minha vida e fazer da fotografia o meu ganha-pão.

Saí registrando cenas que faziam parte do meu cotidiano: crianças nas ruas, trabalhadores, periferias, moradias precárias e marcas da desigualdade espalhadas pela cidade. Eu fotografava lugares e pessoas que não estavam distantes da minha própria vida. Eram realidades que eu conhecia muito bem.

O resultado foi publicado em 19 de outubro de 1997, na reportagem “Ex-garoto de rua sonha ser fotógrafo”. Minhas fotografias estamparam aquela edição da Folha de S.Paulo. Para quem estava começando, ver onze imagens em uma edição de domingo, uma delas na capa de um jornal de grande circulação nacional, foi muito motivador e se tornou um divisor de águas na minha vida.

EDUCAÇÃO POPULAR E OFICINAS DE FOTOGRAFIA

Com a fotografia, comecei a circular por outros espaços. Trabalhei como repórter fotográfico freelancer, com alguns trabalhos para veículos e projetos editoriais como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, revista Quem, revista Trip e UOL. Também fiz ensaio com o grupo Racionais MC’s e participei com fotografia no livro Brasil Bom de Bola, da editora Ponto e Meio.

Essas experiências ampliaram meu caminho, mas não apagaram o compromisso que eu tinha com as minhas origens. Eu não queria que a fotografia me afastasse da vida concreta das pessoas com quem cresci, dos territórios e das lutas que enfrentei e que ajudaram no meu processo de formação.

Depois desse período, resolvi retornar ao Projeto Meninos e Meninas de Rua. Passei a participar da criação de núcleos de base em bairros periféricos, ajudando a organizar jovens e crianças, criar espaços de fala, discutir direitos e cobrar a presença do poder público nas comunidades. Também participei de ocupações urbanas e rurais, na luta pela reforma agrária e por moradia.

Foi nessa militância que comecei a exercer de forma mais contundente a educação popular, por meio de uma prática nascida da convivência nas ruas, nos movimentos sociais e da necessidade de transformar experiência em ação coletiva.

Mais tarde, com a fotografia, trabalhei diretamente com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade na Fundação Criança de São Bernardo do Campo. Ali atuei como fotógrafo e desenvolvi oficinas de fotografia. Nesse novo momento, usei a câmera como ferramenta de expressão, leitura do território, autoestima, disputa de narrativa e denúncia.

Nas oficinas, a proposta era aproximar crianças, adolescentes e jovens da fotografia como forma de olhar para a própria realidade, reconhecer suas histórias e produzir imagens a partir do lugar onde viviam. Fotografar também era perguntar quem aparece, quem fica de fora, que história está sendo contada e quem tem o direito de contar.

NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO MARGINAL

A comunicação popular ganhou mais força na minha vida com o Núcleo de Comunicação Marginal. O NCM nasceu em 2009, reunindo pessoas que vinham de experiências de luta por moradia, mobilização comunitária, cultura e comunicação nas periferias de São Bernardo. Para mim, aquele momento juntava muitas coisas que já faziam parte da minha caminhada: a fotografia, a educação popular, a vida nas periferias e a necessidade de fazer com que as comunidades pudessem contar suas próprias histórias.

Antes do Núcleo, eu já vinha participando de experiências como o Cine Favela em Debate. A estrutura era simples: uma televisão pequena, um aparelho de DVD, filmes alugados com esforço e sessões feitas nas comunidades. Eu participava daquele processo vendo como o cinema podia reunir pessoas e abrir conversas importantes. Depois, com apoio e parceria, levamos o cinema para a rua. Um tecido virava tela, a parede de um barraco virava espaço de projeção. Na Biquinha, no Montanhão, no Alojamento José Fornari e em outros territórios, aquelas sessões juntavam crianças, adolescentes, famílias e moradores para assistir aos filmes e conversar sobre temas ligados ao cotidiano da comunidade.

Em 2005, essa caminhada foi interrompida pelas fortes chuvas e pelos deslizamentos que atingiram a Biquinha e o Montanhão, provocando a morte de sete crianças e dois adultos. Eu acompanhei de perto a dor das famílias e o esforço de quem se envolveu no apoio, nos mutirões, nas assembleias e nas mobilizações por moradia. Muitas famílias da Biquinha passaram primeiro por uma quadra coberta no Centro de Convivência do Ferrazópolis e, depois de alguns meses, foram transferidas para o Alojamento da Avenida José Fornari, criado como solução provisória.

O que deveria durar pouco foi se prolongando. Vi aquelas famílias vivendo em condições desumanas, com esgoto a céu aberto, lixo e ratos. Diante daquele abandono, percebi junto com outros companheiros e companheiras que a comunicação também podia ser uma forma de denúncia e organização. Foi nesse contexto que resolvemos criar o Núcleo de Comunicação Marginal.

Com a Sessão Fala Viela, retomamos as exibições de filmes dentro das comunidades, com sessões ao ar livre, pipoca e conversa com os moradores. Para mim, aquelas atividades mostravam que o cinema podia ser mais do que entretenimento. Ele ajudava a reunir as pessoas e abrir debates sobre moradia, juventude, violência, direitos e organização comunitária.

Também criamos o Produção Fala Viela, com oficinas de fotografia, vídeo, roteiro e edição para crianças e adolescentes. Ali, minha experiência com fotografia e educação popular se encontrava com a vontade de formar outros olhares. A partir desse trabalho, produzimos o documentário Minha Casa, Uma Luta, que reconta a trajetória das famílias vítimas da falta de moradia. O filme passa pela Ocupação Santo Dias, pelo despejo das famílias, pelo retorno forçado aos morros e encostas, pelos deslizamentos que provocaram a morte de sete crianças e três adultos, pelas mobilizações por moradia, pela criação dos alojamentos provisórios e pela luta até a conquista dos prédios onde muitas dessas famílias vivem até hoje.

Outras iniciativas surgiram nesse processo, como a revista Aqui Ó!, que reunia textos, poesias, músicas, fotografias e produções dos participantes, e o quadro Olhar Marginal, voltado à divulgação de produções audiovisuais feitas a partir da periferia. Eu via tudo isso como parte de uma mesma construção: usar imagem, palavra e memória para denunciar injustiças, fortalecer pessoas e disputar o modo como a periferia era vista.

Essas experiências também ganharam reconhecimento fora do território. Pouco tempo depois da criação do Núcleo de Comunicação Marginal, o projeto Sessão Fala Viela foi reconhecido no Prêmio Anu, da CUFA, como iniciativa vencedora do estado de São Paulo. Para um coletivo recém-criado, formado por pessoas da periferia e construído sem grandes recursos, aquele reconhecimento teve um peso enorme. Para mim, ver uma experiência nascida entre a Biquinha e o Alojamento José Fornari ser escolhida naquele contexto mostrou a força do trabalho coletivo e da comunicação feita a partir das margens.

ENCCEJA E FORMAÇÃO PELA VIDA

Depois de muitas idas e vindas com a escola, concluir a escolaridade virou uma necessidade concreta na minha vida. Uma das maiores motivações vinha de um sonho que eu carregava desde a adolescência: atuar no Conselho Tutelar. Para isso, eu precisava ter, no mínimo, o ensino médio completo.

Voltei a procurar a EJA, mas novamente não consegui concluir essa etapa. Em 2008, acabei fazendo a prova do Encceja e consegui eliminar o ensino fundamental.

No ano seguinte, fiz a prova novamente, dessa vez para eliminar o ensino médio. Essa última etapa foi ainda mais desafiadora, porque eu nunca tinha sequer assistido a uma aula dessa fase escolar. Consegui passar na raça. Não digo isso por soberba ou orgulho, mas pelo alívio de finalmente conquistar um diploma que tinha feito tanta falta na minha vida.

Anos depois, tentei cursar Direito duas vezes. A escolha tinha relação com minha atuação na defesa dos direitos humanos e com o desejo de compreender melhor as leis, as instituições e os caminhos de garantia de direitos. Mais recentemente, tentei Psicologia. Nessas experiências, eu tinha interesse pelos temas e conseguia acompanhar o conteúdo, mas o ensino superior exigia uma rotina que disputava espaço com trabalho, projetos e outras prioridades. Permanecer na universidade continuou sendo difícil.

Mesmo sem conseguir permanecer por longos períodos na escola, o pouco tempo que passei por ela foi importante para mim. Mas minha formação não aconteceu só ali. Muita coisa eu aprendi na rua, nos movimentos sociais, nos conselhos, nas reuniões, nas oficinas, nas ocupações, nos encontros nacionais, nas conversas com educadores e educadoras, e nas histórias de crianças, adolescentes, mães, trabalhadores e militantes que passaram pela minha vida.

Minha formação vem desse conjunto. Vem da infância no Cariri, do trabalho infantil, da escola interrompida, da banca de jornal, da rua, do Projeto Meninos e Meninas de Rua, da fotografia, das oficinas, da comunicação popular, das lutas por moradia, dos debates sobre direitos humanos e das muitas pessoas que me ensinaram alguma coisa pelo caminho.

CONSELHO TUTELAR

Anos depois daquela visita ao Conselho Tutelar para pedir apoio com a matrícula escolar, eu voltaria ao mesmo campo em outra condição. Dessa vez, eu passaria a atuar como conselheiro. Isso tinha um significado especial na minha trajetória: eu conhecia o lugar de quem procurava ajuda após bater em muitas portas e não encontrar solução. Agora, era eu quem estava ali para atender crianças, adolescentes e famílias que muitas vezes viviam situações parecidas com as que eu havia enfrentado.

No cotidiano da instituição, chegavam meninos e meninas fora da escola, famílias sem acesso a creche, moradia, saúde, alimentação, assistência social e proteção. Também chegavam situações de violência, fome, abandono, uso de drogas, exploração, violência policial e ausência de políticas públicas. Em muitos casos, a violação não começava dentro da família. Começava antes, quando o Estado deixava de garantir direitos básicos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Em alguns atendimentos, reencontrei pessoas com quem convivi na rua. Muitas delas procuravam o órgão por causa dos filhos ou filhas. Aquilo mexia muito comigo, porque eu não olhava aquelas histórias de fora. Eu reconhecia ali muitas marcas da pobreza, do racismo, da falta de oportunidades e do abandono do poder público.

Atuar nessa função também me mostrou os limites das instituições. O Conselho Tutelar é importante, mas não consegue resolver sozinho problemas que dependem da escola, atendimento de saúde, assistência social, moradia, segurança alimentar e políticas públicas estruturadas. Muitas vezes, o conselheiro cobra, encaminha e pressiona, mas encontra uma rede insuficiente, lenta ou despreparada para responder à urgência da vida de uma criança ou adolescente.

Nesse período, também participei da articulação da Frente Nacional Contra a Redução da Maioridade Penal, quando o Congresso Nacional tentou reduzir de 18 para 16 anos a idade mínima para responsabilização criminal de adolescentes. A nossa posição não era contra a responsabilização de adolescentes que cometem ato infracional. Essa responsabilização já está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, por meio de medidas socioeducativas como advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação, que pode chegar a até três anos.

Durante minha atuação como conselheiro, contribuí para garantir direitos de muitas pessoas e precisei lidar com situações difíceis. Em defesa dos direitos de meninos e meninas, tive que me posicionar diante de gestores públicos, secretários, delegados, promotores, juízes e outros agentes do Estado. Cobrar providências, denunciar omissões e exigir responsabilidade quase sempre gerava tensão, mas eu não conseguia me calar diante de uma violação de direito.

Foram anos de muito desgaste. O acúmulo de casos sem resposta adequada, a omissão de órgãos que deveriam garantir proteção e a sensação de estar sempre cobrando o básico afetaram minha saúde emocional. Ainda assim, aquele trabalho teve muito sentido na minha trajetória, porque me permitiu atuar na defesa direta de meninos e meninas que chegavam ao atendimento depois de terem seus direitos negados por muito tempo.

PATERNIDADE, LUTO E CUIDADO

A paternidade ocupa um lugar gigante na minha história. Sou pai de Hernesto Gabriel, João Paulo, Hakim Mariguela e Samyra Medeiros. Cada um deles faz parte da minha caminhada de um jeito próprio e ajudou a formar o homem que fui me tornando.

Hernesto desencarnou ainda bebê, com três meses e sete dias de vida. Sua passagem breve deixou uma saudade profunda e uma ligação espiritual que permanece comigo. Falar dele exige cuidado, porque não se trata de transformar a dor em explicação. Sua existência, mesmo tão curta, faz parte da minha memória e da minha forma de compreender o amor, a perda e a continuidade da vida.

João, Hakim e Samyra fazem parte do meu cotidiano afetivo, das minhas responsabilidades e das minhas preocupações com o futuro. Quando eu falava de infância, proteção, educação, cultura, alimento, afeto e direitos, eu não falava apenas como militante, educador ou conselheiro. Falava também como pai.

Também fazem parte do meu convívio Brisa, minha cachorrinha, e Carranca, meu gato. Eles entram nessa dimensão mais simples do cuidado diário: a companhia, a vida dentro de casa e os pequenos vínculos que também ajudam a sustentar a vida cotidiana.

MOTORISTA DE APLICATIVO E PRIMEIRA IDEIA DO VIRALIZANDO

Depois do período no Conselho Tutelar, veio outra fase da minha vida. Trabalhei como motorista de aplicativo. Passei muitas horas dirigindo pela cidade, levando pessoas para destinos que não eram meus. A rotina era cansativa e, aos poucos, começou a me incomodar. Eu rodava muito, mas sentia falta de um caminho que tivesse mais sentido para mim.

Nesse período, também fui candidato a vereador. A candidatura fazia parte da minha caminhada nos direitos humanos, na defesa da infância, na comunicação popular e na militância de base. Mesmo não sendo eleito, aquela experiência também compôs minha trajetória pública e reforçou meu compromisso com as periferias e com a luta por direitos.

Foi nesse período que comecei a elaborar a primeira ideia do Viralizando o Nordeste. A proposta era sair de São Paulo em direção ao Nordeste, fazendo do próprio deslocamento parte do projeto. Pelo caminho, eu queria produzir registros fotográficos e audiovisuais, ouvir pessoas, passar por comunidades e mostrar histórias, culturas populares, modos de vida e formas de organização.

Pouco antes de colocar o projeto na estrada, fui assaltado. O carro que seria utilizado para fazer o percurso foi roubado e estava sem seguro. Fiquei sem meio de trabalho e precisei interromper o planejamento antes mesmo de colocar a ideia em prática.

SUÍÇA, PORTUGAL E RETORNO AO BRASIL

Depois do assalto, veio um período de reorganização. Minha irmã Clébia, que mora na Suíça, me convidou para passar um tempo com ela. Eu aceitei e fiquei cerca de três meses em sua casa.

Depois fui para Portugal, onde morei com meu sobrinho Johnny, em Olhão, na região de Faro. Trabalhei primeiro em uma sorveteria e depois em um restaurante. Fiquei cerca de sete meses por lá.

Estar fora do Brasil me fez olhar para minha vida com certa distância. Pensei nos caminhos que tinha percorrido, nas perdas, nas escolhas, nos projetos interrompidos e no que ainda fazia sentido seguir buscando. Também foi um período de silêncio, reflexão espiritual e tentativa de reorganização interna.

Mas a saudade foi ficando grande. Eu sentia falta do Brasil, da minha família, dos meus vínculos e da minha própria história. Com o tempo, entendi que precisava voltar.

REENCONTRO COM MARIA E RETOMADA DO VIRALIZANDO

De volta ao Brasil, reencontrei Maria da Cruz. Muita coisa já tinha passado pela vida de cada um de nós desde aquele primeiro encontro em Brasília.

Começamos a conversar, a nos aproximar e a compartilhar projetos. Foi nesse processo que falei para ela sobre o Viralizando o Nordeste. Maria abraçou a ideia, e o projeto voltou a ganhar força, agora como uma construção compartilhada entre a minha trajetória na fotografia e na comunicação popular e a caminhada dela na educação popular.

A retomada começou com o Esquenta do Viralizando o Nordeste, uma primeira experiência de estrada por territórios da Bahia, de Pernambuco e da Paraíba.

NA DIREÇÃO

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Maria da Cruz

Do Piauí à educação popular
 

PRIMEIRA INFÂNCIA EM TERESINA

Eu nasci em Teresina, no Piauí. Sou filha de Maria do Céu e João Paulo.

Cresci em uma família pobre, cercada por outras Marias, mulheres que passavam o dia cuidando da casa e das crianças. Brinquei em terreiro de terra batida, rodeada por casas de pau a pique. Via famílias que tinham pouco para comer, remendavam roupa usada e deixavam de comprar o essencial porque o dinheiro acabava antes do mês terminar.

Em casa, eu via minha mãe dividir a janta e o almoço para que, no dia seguinte, ainda houvesse algo para a gente comer. Nas casas vizinhas, mulheres criavam os filhos sem os pais, assumindo sozinhas o sustento e as tarefas da casa.

Na escola, eu acompanhava as aulas, copiava as lições, fazia as atividades e tentava responder ao que a professora perguntava. Eu gostava de aprender. O que me doía era ficar de fora das brincadeiras.

No recreio, as outras meninas não me chamavam para as conversas nem para as brincadeiras. Eu era ignorada. Quando me aproximava, continuavam conversando como se eu não estivesse ali. Se eu tentava entrar na brincadeira, saíam para outro canto. Só mais tarde percebi que aquela indiferença tinha relação com minhas roupas, com o meu material e com o lanche simples que eu levava.

Eu fazia as mesmas tarefas que todo mundo, entregava os trabalhos e participava das atividades, mas continuava sozinha no recreio. Houve dias em que passei o intervalo inteiro sem ninguém sentar ao meu lado. Via as meninas se organizando para brincar e sabia que não seria chamada. Foi assim que aprendi, ainda menina, o que é a dor de ser tratada como alguém desprezada e excluída. Isso marcou a minha formação.

Hoje, quando vejo uma criança calada, com medo de falar ou de se juntar aos colegas, eu não desvio o olhar. Observo como ela entra na sala, onde se senta, de quem se aproxima e se há algum adulto disposto a escutá-la. Eu me aproximo. Faço o que muitas vezes não fizeram por mim.

MOVIMENTO, PERTENCIMENTO E INFÂNCIA BRINCADA

Algum tempo depois passei a frequentar o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, no núcleo de base da comunidade Quilômetro 6, em Teresina. Ali encontrei um espaço onde podia falar, ser ouvida e participar das decisões junto com outras crianças.

Participei do grupo Maravi, das rodas de conversa e capoeira, das oficinas de serigrafia e percussão. Para mim e para tantas outras crianças, aquele era o lugar onde deixávamos de ser pessoas rejeitadas. Aprendíamos com o corpo, com a arte, com o ritmo, com o diálogo, com a escuta e com a convivência.

No movimento também falávamos de coisas difíceis. Foi ali que comecei a entender por que tantas crianças pobres eram impedidas de falar, mesmo tendo cultura, história e opinião sobre a própria vida. Aprendi o que significa ser tratada com dignidade.

Entendi a força da palavra dita em roda, da decisão tomada em conjunto e do direito de cada criança dizer o que pensa e ser levada a sério. Aquilo abriu caminho para o que mais tarde reconheci como educação popular.

MIGRAÇÃO E MOVIMENTO

Aos 12 anos, migrei para São Paulo para ajudar minha irmã mais velha a cuidar da filha que tinha acabado de nascer. Saí da casa da minha mãe para assumir responsabilidade dentro da família ainda na adolescência.

Cheguei a uma cidade grande, com outra dinâmica e outra escola. Minha rotina mudou. Passei a dividir o tempo entre estudo e cuidado. Precisava aprender a me orientar naquele novo espaço sem abrir mão do que já fazia parte de mim.

Assim que me instalei, procurei pessoas ligadas ao movimento para continuar participando. Eu não queria interromper o processo que tinha começado em Teresina. Segui envolvida nas atividades, agora em outro território.

Em 1995, participei do IV Encontro Nacional do Movimento, em Brasília. Eu tinha 17 anos. Estar ali, com crianças, adolescentes, educadoras e educadores de vários estados, ampliou minha compreensão sobre a dimensão da organização. Percebi que a violação dos direitos de crianças e adolescentes não era uma realidade restrita a uma cidade. Era uma situação que se repetia em diferentes regiões do país. O que eu tinha vivido na infância fazia parte de uma luta nacional.

Foi nesse encontro que conheci Léo Duarte. Nos encontramos naquele espaço de mobilização pelos direitos da criança e do adolescente. Depois disso, seguimos atuando em frentes semelhantes, às vezes nos cruzando em atividades e mobilizações, enquanto cada um construía sua trajetória.

FORMAÇÃO ACADÊMICA E AMPLIAÇÃO DA RESPONSABILIDADE

Depois daquele encontro, minha trajetória ganhou outro ritmo. Passei a assumir responsabilidades maiores dentro do Movimento e compreendi que minha participação exigia preparo e compromisso contínuo.

Entrei no curso de Pedagogia na Fundação Santo André. Queria aprofundar, com estudo sistemático, aquilo que já vivia na prática com crianças, educadoras e nos espaços de organização coletiva.

Comecei a atuar como professora de Educação Infantil no Círculo de Trabalhadores Cristãos de Vila Prudente. Além da sala de aula, coordenei um projeto voltado ao atendimento de crianças em situação de vulnerabilidade social. Organizava atividades, acompanhava o desenvolvimento das crianças e mantinha diálogo constante com as famílias.

Assumi a coordenação estadual do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua em São Paulo. A menina que, aos nove anos, tinha sido acolhida em um núcleo de base em Teresina passou a responder pela articulação da organização em outro estado.

Eu conhecia o significado daquele espaço. Sabia a importância de uma roda de conversa, de uma decisão tomada em conjunto, do diálogo e da escuta verdadeira de uma criança. Na coordenação, minha responsabilidade envolvia articular núcleos, organizar encontros, acompanhar educadoras e educadores e garantir que crianças e adolescentes permanecessem no centro das decisões do Movimento.

Estudo, trabalho e militância aconteciam juntos. A formação fortalecia minha atuação, e a experiência com as crianças atravessava tudo o que eu aprendia.

ESCOLA PÚBLICA, MATERNIDADE E AMPLIAÇÃO DA RESPONSABILIDADE

Depois dos anos intensos de formação e militância, minha trajetória entrou em uma etapa decisiva. Concluí a graduação em Pedagogia em 2001 e, dois anos depois, me habilitei em Educação Infantil pela UNIP – SP. Passei a atuar na rede pública municipal de Cajamar, e a escola pública tornou-se o centro da minha vida profissional e política.

Assumi turmas das séries iniciais, trabalhei com alfabetização e também na Educação de Jovens e Adultos. A sala de aula organizava meus dias: planejamento, acompanhamento das aprendizagens, reuniões com famílias, escuta das crianças e dos adultos que voltavam a estudar depois de anos afastados da escola.

Em 2006, nasceu meu primeiro filho, Fidel Castro Mendes. A maternidade entrou na minha vida enquanto eu já estava imersa no trabalho docente e na militância. Ser mãe e ser professora ao mesmo tempo alterou minha forma de olhar para a infância. O cuidado passou a ser também experiência cotidiana dentro de casa.

Entre 2006 e 2008, atuei como coordenadora pedagógica na EMEB Demétrio Rodrigues Pontes. Passei a acompanhar o trabalho das professoras e dos professores, organizar momentos de formação, discutir práticas pedagógicas, enfrentar dificuldades do cotidiano escolar e pensar a escola como projeto coletivo.

Nesse mesmo período, participei do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Cajamar. Levar para esse espaço a experiência da sala de aula ampliou minha atuação para além da escola, envolvendo discussões sobre políticas públicas e garantia de direitos.

Também me envolvi com a Associação de Pais e Mestres da EMEB Demétrio Rodrigues Pontes, fortalecendo o diálogo com a comunidade e acompanhando decisões que impactavam o cotidiano escolar.

Entre 2003 e 2008, eu estava na sala de aula, na coordenação pedagógica, no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e, ao mesmo tempo, aprendendo a ser mãe. Minha vida profissional e pessoal se entrelaçavam no mesmo ritmo, dentro da escola pública e nos espaços de decisão sobre a infância.

MATERNIDADE E CIÊNCIAS HUMANAS

Segui na rede municipal de Cajamar, com a escola organizando meus dias. Continuei em sala de aula, acompanhando as turmas, planejando, avaliando e dialogando com as famílias.

Entre 2009 e 2011, cursei a pós-graduação em Ensino de Ciências Humanas e Sociais em Escolas do Campo, pelo ITERRA/UFSC. Essa formação aprofundou minha reflexão sobre território, educação do campo e práticas pedagógicas vinculadas à realidade concreta das comunidades.

A experiência na coordenação pedagógica permanecia como referência no meu modo de trabalhar. Participava das discussões coletivas, acompanhava o andamento do trabalho da escola e contribuía na organização das ações pedagógicas.

Em 2010, nasceu meu segundo filho, Juan Gusmaro Santos da Rosa. A casa ficou mais cheia, e a rotina também. Dois filhos pequenos, escola pública, reuniões, planejamento e estudo. Eu acordava cedo, organizava a vida doméstica, ia para a escola e voltava para continuar o cuidado. A maternidade fazia parte da forma como eu compreendia as crianças que estavam comigo todos os dias na sala.

Em 2014, retornei à EMEB Demétrio Rodrigues Pontes como professora substituta, retomando o trabalho direto com as turmas naquele mesmo território onde já tinha exercido a coordenação pedagógica.

Entre 2009 e 2014, minha vida esteve estruturada pelo trabalho na escola pública, pela formação continuada e pelo cuidado com meus filhos. A educação seguia como prática diária, na sala de aula e na relação constante com a comunidade escolar.

GESTÃO, MATERNIDADE E PAULO FREIRE

A partir de 2015, permaneci vinculada à rede municipal de Cajamar e à EMEB Demétrio Rodrigues Pontes. A escola continuava sendo meu espaço diário de trabalho, com planejamento, acompanhamento pedagógico e diálogo constante com a equipe e com as famílias.

Em 2016, nasceu meu terceiro filho, João Paulo Santos da Rosa. Três filhos, escola pública, reuniões, decisões pedagógicas e organização da vida doméstica exigiam disciplina e resistência. O cuidado atravessava minha rotina dentro e fora da escola.

Em 2018, assumi a Presidência do Conselho Municipal de Educação de Cajamar, participando do monitoramento do Plano Municipal de Educação. A atuação nesse espaço ampliou minha responsabilidade sobre as políticas educacionais do município, envolvendo acompanhamento de metas, debates públicos e decisões que impactavam a rede como um todo.

Em 2020, assumi a direção da EMEB Demétrio Rodrigues Pontes como servidora pública concursada. No mesmo período, atuei no CACS-FUNDEB de Cajamar, participando do acompanhamento e fiscalização dos recursos destinados à educação. Também participei do curso “Como alfabetizar com Paulo Freire”, oferecido pelo Instituto Paulo Freire, aprofundando meus estudos sobre alfabetização a partir do pensamento freireano.

No mesmo ano, a pandemia de COVID-19 alterou profundamente o funcionamento da escola. Foi necessário reorganizar o trabalho, manter o vínculo com as famílias à distância, acompanhar situações de vulnerabilidade e enfrentar os impactos do isolamento nas crianças e nos profissionais. A gestão exigiu presença constante, escuta e decisões firmes em um cenário instável.

Entre 2015 e 2020, minha vida foi marcada pela direção escolar, pela maternidade, pela participação nos conselhos e pelo fortalecimento das articulações culturais que ampliavam minha atuação para além dos muros da escola.

PESQUISA E O REENCONTRO COM LÉO DUARTE

Segui na direção da EMEB Demétrio Rodrigues Pontes. A escola ocupava meus dias com decisões pedagógicas, acompanhamento da equipe, organização do trabalho docente, atendimento às famílias e encaminhamentos administrativos.

Ingressei no mestrado no FORMEP — Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: Formação de Formadores, da PUC-SP. Minha pesquisa nasce da escola pública onde atuo como gestora. Investigo o cotidiano escolar, a organização do trabalho pedagógico e os processos formativos que acontecem dentro da própria instituição, com atenção à formação de educadores, à afetividade, à humanização pedagógica, ao pensamento freireano e à busca pelo bem viver. A prática que eu vivia diariamente passou a ser objeto de estudo, análise e sistematização.

Há quatro anos participo do Projeto Brincadas. Na escola, nos organizamos como COLINA — Coletivo de Investigação e Ação — desenvolvendo práticas de pesquisa e aprendizagem a partir do brincar e de uma abordagem desencapsulada do currículo. Debatemos questões do território, como a falta de água encanada e seus impactos na escola, problemas de saneamento básico, questões ambientais e violências que geram sofrimentos ético-políticos. A defesa da escola pública e da educação democrática atravessa essas ações.

Nesse contexto reencontrei Léo Duarte, trinta anos depois. Nossas trajetórias voltaram a se aproximar, atravessadas por experiências, responsabilidades e caminhos construídos ao longo do tempo.

Retomamos o diálogo a partir do que sempre nos aproximou: educação, infância, comunicação popular e território. A ideia do Projeto Viralizando o Nordeste reapareceu nessas conversas.

No início de 2026, submeti minha pesquisa ao 15º Seminário Paulo Freire, realizado em Recife. O trabalho foi aprovado para apresentação. A viagem criou as condições concretas para colocar o projeto na estrada. Transformamos o deslocamento até Pernambuco na primeira experiência prática do Viralizando, chamada de Esquenta. A viagem possibilitou encontros, conversas e articulações em diferentes territórios do Nordeste, iniciando um processo que segue em construção.

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Em nome de: Maria da Cruz Sousa Santos

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