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O PROJETO

IMERSÃO AO NORDESTE

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APRESENTAÇÃO

 

O Viralizando o Nordeste começou a ser pensado entre 2020 e 2021, quando eu trabalhava como motorista de aplicativo em São Paulo. Naquele período, eu passava muitas horas dirigindo pela cidade, levando pessoas para destinos que não eram meus. Ia de um bairro para outro, de uma região para outra, rodava bastante e sentia falta de uma direção própria. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de usar o carro, que era meu instrumento de trabalho, para voltar ao Nordeste e percorrer os nove estados da região.

Para ver se isso podia acontecer, fiz um teste saindo de São Bernardo do Campo em direção a Serra Negra. Fui pegando passageiros ao longo do caminho e cheguei ao destino com dinheiro no bolso e o tanque cheio.

Aquele percurso me mostrou que eu podia sair de São Paulo e seguir viagem trabalhando no caminho. Foi assim que o projeto começou a ganhar forma. A intenção era voltar ao Nordeste a partir da minha própria história e produzir registros sobre comunidades, culturas populares, modos de vida, experiências de luta, práticas educativas, memórias locais e formas de organização popular.

Minha trajetória passa pela infância pobre no Cariri, pelo trabalho precoce, pela migração forçada para São Paulo, pela vivência nas ruas, pela fotografia documental, pela comunicação popular, pela educação popular, pela defesa da infância e adolescência, pelo Conselho Tutelar, pela cultura nordestina, pelo audiovisual e pela articulação social. O projeto nasce desse percurso e da relação que construí, ao longo dos anos, com diferentes lutas, territórios e formas de participação popular.

A saída estava prevista para janeiro de 2022. Em novembro de 2021, durante uma corrida, fui assaltado. Dois jovens armados levaram o carro que seria usado na viagem. O veículo não tinha seguro. Fiquei sem carro, sem meio de trabalho e sem condições de comprar outro naquele momento. O projeto foi interrompido antes de começar. Depois disso, vivi um período de reorganização. Passei um tempo na Suíça, com minha irmã Clébia, e depois segui para Portugal, onde morei em Olhão, na região de Faro, e trabalhei por alguns meses. A ideia do Viralizando o Nordeste permaneceu comigo até que eu pudesse voltar ao Brasil e reconstruir as condições para retomar o projeto.

Foi nesse retorno que reencontrei Maria da Cruz. Nós nos conhecemos em 1995, em Brasília, durante o 4º Encontro Nacional de Meninos e Meninas de Rua. Naquele momento, eu participava do Projeto Meninos e Meninas de Rua, em São Bernardo do Campo, e Maria representava a delegação de São Paulo na mesma luta. Quase trinta anos depois, nossas trajetórias voltaram a se cruzar. Maria, nascida em Teresina, no Piauí, já trazia uma caminhada longa na educação pública, na gestão escolar, na pesquisa acadêmica, nos conselhos de educação, na Educação de Jovens e Adultos, na alfabetização, na formação de educadores e na pedagogia freireana.

Quando voltamos a conversar sobre o projeto, percebemos que ele reunia questões muito presentes na história dos dois: o Nordeste, a infância popular, a educação pública, a escuta das comunidades, a formação humana e a leitura crítica da realidade. Foi assim que o Viralizando o Nordeste passou a ser reorganizado em conjunto. O projeto deixou de ser apenas uma ideia ligada ao meu retorno e passou a incorporar também a experiência de Maria com a escola pública, a formação de educadores e o trabalho nos territórios.

Em 2026, Maria foi convidada para apresentar resultados preliminares de sua pesquisa no 15º Seminário Paulo Freire e no 13º Encontro de Cátedras e Grupos Paulo Freire, em Recife. Ela é mestranda do FORMEP, na PUC-SP, e sua pesquisa tem relação direta com a escola pública onde atua como gestora há seis anos. A ida a Recife se tornou a primeira experiência prática do projeto na estrada. Assim nasceu o Esquenta do Viralizando o Nordeste.

O percurso abriu encontros, registros e articulações importantes. Também deixou uma lição decisiva: a fase completa precisa de tempo para parar, conversar, organizar atividades, construir vínculo, guardar materiais e trabalhar com responsabilidade em cada território. A próxima etapa do Viralizando o Nordeste se apoia nessa experiência e segue voltada à realização de uma imersão mais ampla, com permanência, rede de apoio, estrutura e compromisso com as pessoas e os lugares que fazem o Nordeste existir no cotidiano.

ESCUTA POPULAR

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OBJETIVOS

 

O Viralizando o Nordeste tem como objetivo realizar uma imersão documental, pedagógica, audiovisual, cultural e de comunicação popular pelos nove estados do Nordeste brasileiro. O projeto foi pensado para percorrer Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão, com permanência mínima de um mês em cada estado e trabalho construído em diálogo com comunidades, escolas, coletivos, movimentos sociais, grupos culturais e diferentes sujeitos dos territórios.

Uma das frentes centrais do projeto é registrar e organizar memória. Isso envolve fotografia, vídeo, áudio, escrita, entrevistas, diário de bordo e produção de acervo voltado a modos de vida, trabalhos, religiosidades, festas, práticas educativas, lutas sociais, formas de organização e experiências que ajudam a contar o Nordeste a partir de quem vive nele. A proposta é produzir registros que preservem e façam circular histórias populares com cuidado, contexto e responsabilidade.

Outra frente é o Cine Nordeste em Debate. O projeto pretende realizar sessões comunitárias de cinema brasileiro em escolas, praças, associações, terreiros, quintais e outros espaços coletivos dos territórios por onde a imersão passar. Os filmes serão escolhidos em diálogo com cada lugar, e as exibições serão acompanhadas de rodas de conversa para que o cinema funcione como espaço de encontro, leitura da realidade e discussão pública.

O Nosso Ponto de Vista reúne as ações formativas do projeto. A proposta é realizar oficinas populares de fotografia, vídeo, comunicação comunitária e produção de narrativas audiovisuais com moradores e participantes dos territórios envolvidos. Nessas oficinas, o objetivo é criar condições para que crianças, jovens, educadores, trabalhadores, lideranças, comunicadores locais, artistas populares e outros participantes possam fotografar, filmar, entrevistar, escolher temas e produzir materiais sobre a vida das comunidades.

O projeto também busca fortalecer redes, compartilhar materiais e ampliar circulação pública. Isso envolve parceria com escolas públicas, universidades, cineclubes, rádios comunitárias, associações locais, coletivos culturais, movimentos sociais, artistas, pesquisadores, comunicadores e apoiadores. Envolve, ainda, a produção de materiais que possam retornar aos territórios e seguir circulando depois da passagem da estrada.

OUTRAS NARRATIVAS

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JUSTIFICATIVA


O Viralizando o Nordeste nasce do encontro entre trajetórias ligadas à educação popular, à defesa da infância e ao trabalho em territórios marcados por desigualdade, deslocamento, memória e resistência. O projeto transforma esse acúmulo em uma imersão construída com os lugares por onde passa.
 

Essa imersão se justifica pela necessidade de olhar o Nordeste fora do enquadramento que, durante muito tempo, associou a região à seca, ao atraso, à pobreza e ao turismo. O Nordeste é feito de trabalho, criatividade, cultura, espiritualidade, conflito, memória, organização comunitária, escola pública, povos tradicionais, feiras, terreiros, assentamentos, quilombos, aldeias, povoados, cidades e muitas outras formas de vida que raramente aparecem com a densidade que merecem.
 

O projeto também se justifica pela forma como trabalha imagem, cinema, escuta e comunicação. Muitas comunidades aparecem publicamente só em situações de tragédia, violência, denúncia ou exotização. Ficam de fora as práticas de cuidado, os modos de organização, a memória familiar, o trabalho das mulheres, a cultura popular, as experiências educativas e a inteligência cotidiana de quem sustenta a vida nesses lugares. O Viralizando o Nordeste se organiza para registrar, discutir e fazer circular outras imagens e outras narrativas sobre a região.
 

Há ainda uma razão ligada ao acesso à cultura e à produção de memória. O Cine Nordeste em Debate e o Nosso Ponto de Vista foram pensados porque cinema, fotografia e comunicação seguem chegando de forma desigual a muitos territórios. Em muitos lugares, essas experiências ainda dependem da iniciativa das próprias comunidades, das escolas, das associações e das redes locais. Ao mesmo tempo, muitas histórias permanecem guardadas nas lembranças das famílias, nas conversas entre vizinhos, nas festas, nas escolas, nas associações e nos arquivos improvisados do cotidiano. Registrar essas experiências com cuidado e criar condições para que os próprios moradores também produzam imagens e narrativas faz parte do sentido político, cultural e pedagógico da imersão.
 

A experiência do Esquenta do Viralizando o Nordeste confirmou a força dessa proposta e também mostrou o que ela exige. O percurso por Pernambuco, Paraíba e Bahia abriu encontros, articulações e registros importantes. Também mostrou a necessidade de tempo, permanência, parceria local, organização dos materiais, condições de deslocamento e responsabilidade com cada território.
 

O projeto se justifica, portanto, porque reúne memória, cultura, comunicação popular, formação e presença territorial em uma mesma caminhada. Seu sentido está em percorrer o Nordeste com tempo para escutar, registrar, construir vínculo e devolver aos territórios materiais e experiências que permaneçam depois da passagem da estrada.

TERRITÓRIOS VIVOS

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PARA QUEM

 

O Viralizando o Nordeste será realizado com pessoas, grupos e comunidades dos territórios por onde a imersão passar. Isso inclui escolas públicas, associações comunitárias, coletivos culturais, movimentos sociais, grupos ligados à cultura popular e diferentes sujeitos da vida cotidiana do Nordeste.

Entram nesse campo comunidades quilombolas, povos indígenas, comunidades de terreiro, comunidades rurais, territórios pesqueiros, comunidades ribeirinhas, pescadores e pescadoras, rendeiras, quebradeiras de coco babaçu, mestres e mestras da cultura e outros agrupamentos populares.

O projeto também se dirige a crianças, adolescentes, jovens, educadores, trabalhadores, lideranças comunitárias, comunicadores locais, artistas populares e demais moradores interessados em participar das atividades, acompanhar os registros, frequentar as sessões de cinema, tomar parte das rodas de conversa e construir materiais sobre a vida das próprias comunidades.

As ações do projeto foram pensadas para quem deseja participar dos registros, das atividades culturais e das ações formativas realizadas ao longo da imersão. Esse trabalho envolve quem já atua nos territórios e quem deseja se aproximar dessas experiências por meio do cinema, da fotografia, da comunicação e da educação popular.

O Viralizando o Nordeste também dialoga com escolas, universidades, cineclubes, rádios comunitárias, pesquisadores, artistas, apoiadores e redes que possam contribuir para a circulação pública dos materiais produzidos ao longo da estrada. Nesse caso, o projeto alcança um público mais amplo, formado por pessoas e instituições interessadas em acompanhar a imersão, conhecer os territórios envolvidos e sustentar a continuidade desse trabalho para além da passagem por cada estado.

PEDAGOGIA POPULAR

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METODOLOGIA

 

A metodologia do Viralizando o Nordeste será construída a partir da estrada, da convivência com as pessoas, da comunicação e educação popular. O projeto parte de um percurso predefinido e de uma proposta de trabalho organizada. Cada etapa será preparada e realizada de acordo com a conjuntura, a geografia e as condições concretas encontradas em cada estado, em cada cidade e em cada território. Isso significa considerar a disponibilidade das pessoas, a existência de parcerias locais e o tipo de atividade que faz sentido em cada comunidade.

A fase completa foi pensada para percorrer os nove estados do Nordeste com permanência mínima de um mês em cada estado. Essa definição nasceu da experiência que conseguimos adquirir com a etapa do Esquenta do Viralizando o Nordeste, realizada nos estados de Pernambuco, Paraíba e Bahia. Esse processo nos mostrou, na prática, que precisamos de tempo suficiente para conversar com as pessoas, organizar atividades e construir vínculo. Em Sergipe e Alagoas, por exemplo, não foi possível fazer as paradas que gostaríamos de ter feito.

Antes de cada entrada em estado, será feita uma preparação prévia com levantamento de contatos e articulação local. Essa preparação inclui escolas públicas, associações comunitárias, grupos culturais, rádios comunitárias, cineclubes, lideranças locais, movimentos sociais, comunicadores, coletivos de juventude, organizações de mulheres e outros grupos ligados à vida do lugar. Esse trabalho serve para identificar quem já atua naquele território, quais espaços podem receber as atividades, que temas mobilizam a comunidade, que cuidados precisam ser observados e que tipo de parceria pode sustentar melhor a passagem do projeto.

O Viralizando o Nordeste será desenvolvido em quatro frentes de trabalho. A primeira é a documentação social, com produção de fotografias, vídeos, áudios, entrevistas, textos e diário de bordo sobre trabalho, religiosidade, cultura popular, práticas educativas, formas de organização, festas, lutas sociais, memórias familiares e experiências da vida cotidiana.

A segunda frente é o Cine Nordeste em Debate, com sessões comunitárias de cinema brasileiro em escolas, associações, terreiros, quintais, praças e outros espaços coletivos, seguidas de conversa com o público.

A terceira é o Nosso Ponto de Vista, com oficinas populares de fotografia, vídeo e comunicação comunitária para que moradores, educadores, jovens, trabalhadores, lideranças e outros participantes possam registrar seus próprios territórios, escolher temas, produzir imagens e construir materiais sobre a vida das comunidades.

A quarta frente é a comunicação pública da imersão, feita por meio de textos, fotografias, vídeos e registros do percurso.

NORDESTE ADENTRO

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CARTOGRAFIA

 

A cartografia do Viralizando o Nordeste será construída com pesquisa prévia, experiência de estrada e escuta dos territórios. O projeto parte de uma rota inicial pelos nove estados do Nordeste e desenvolve esse percurso a partir do que já foi levantado antes da saída, do que o Esquenta do Viralizando o Nordeste ensinou e das indicações feitas por quem vive em cada lugar.

Esse mapa ajuda a definir onde o projeto vai parar, permanecer e trabalhar. Ele aproxima parceiros locais, orienta as ações previstas e permite reconhecer temas importantes em cada estado, em cada cidade e em cada comunidade. Também serve para localizar espaços de encontro, exibição, registro e formação ao longo da estrada.

No percurso, o projeto passará por capitais, cidades médias, povoados e comunidades ligadas ao litoral, ao sertão, às serras, aos rios e às áreas rurais. Entram nesse mapa bairros populares, territórios pesqueiros, aldeias, quilombos, terreiros, escolas públicas, feiras, associações, rádios comunitárias e cineclubes.

Também entram lugares pequenos e pouco visíveis, como uma escola distante do centro, uma feira de beira de estrada, uma praça que pode receber uma sessão de cinema, uma casa que acolhe ou uma comunidade interessada em produzir seus próprios registros. A cartografia precisa alcançar os lugares mais conhecidos e também aqueles que quase nunca aparecem quando o Nordeste é contado de fora.

A escolha desses lugares acompanha temas que atravessam toda a imersão. O projeto se aproxima de territórios marcados por lutas populares e sociais, cultura popular, trabalho comunitário, modos de vida ligados às águas, agricultura familiar, presença de povos e comunidades tradicionais, experiências da escola pública, proteção social e comunicação comunitária. Entram também lugares em que memória, fé, festa, conflito, trabalho e organização coletiva ajudam a sustentar a vida cotidiana.

A cartografia acompanha diretamente as ações do projeto. Para o Cine Nordeste em Debate, será preciso localizar espaços onde as sessões comunitárias de cinema brasileiro possam acontecer com participação do público. Para o Nosso Ponto de Vista, será preciso encontrar grupos e comunidades interessados em produzir fotografias, vídeos, entrevistas e outros materiais sobre seus próprios territórios.

Ao longo da estrada, esse mapa continuará recebendo novas informações, convites, memórias locais e indicações feitas pelos moradores. A cartografia do Viralizando o Nordeste acompanha esse movimento para que o projeto chegue a cada lugar com mais atenção, mais responsabilidade e melhores condições de trabalho.

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E-mail: viralizandoonordeste@gmail.com

Em nome de: Maria da Cruz Sousa Santos

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