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Filme Lendo o Mundo revisita Paulo Freire, Angicos e a alfabetização como caminho de libertação

  • 7 de jun.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 7 de jun.


Documentário dirigido por Catherine Murphy e Iris de Oliveira revisita a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte, e mostra por que alfabetizar pessoas adultas trabalhadoras foi entendido como ameaça por setores autoritários do país.


Em uma sala de cinema na Avenida Paulista, em São Paulo, a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte, voltou à tela como memória viva da educação popular brasileira. Lendo o Mundo reconstrói o trabalho conduzido por Paulo Freire, em 1963, quando trabalhadoras e trabalhadores rurais participaram de um processo de alfabetização que unia palavra, vida concreta, consciência crítica e participação política.


Dirigido por Catherine Murphy e Iris de Oliveira, o documentário recupera uma das experiências mais importantes da educação popular no Brasil. A obra apresenta a força política, pedagógica e humana de um processo que colocou no centro da aprendizagem pessoas humildes que, até então, haviam sido privadas do acesso à leitura e à escrita. Em vez de tratá-las com invisibilidade, o método reconhecia seus saberes, suas palavras e sua capacidade de compreender a própria realidade.


A experiência ficou conhecida como as 40 horas de Angicos. Em 1963, Paulo Freire e uma equipe de educadoras e educadores desenvolveram uma ação de alfabetização com cerca de 300 pessoas jovens e adultas, em sua maioria trabalhadoras do campo. A proposta partia da vida concreta da comunidade: das palavras do trabalho, da casa, da terra, das conversas, dos conflitos e das necessidades reais de quem aprendia a ler e escrever.


Esse caminho aparecia nas chamadas fichas de cultura, materiais usados nos Círculos de Cultura para provocar diálogo antes mesmo do estudo das letras. Eram imagens com cenas próximas da vida das pessoas educandas. A partir delas, o grupo conversava sobre trabalho, moradia, comunidade, desigualdade e outros temas do cotidiano. Desse diálogo surgiam as palavras geradoras, como “tijolo”, “enxada” e “belota”, depois decompostas em famílias silábicas para formar novas palavras. A leitura da escrita caminhava junto com a leitura crítica da realidade.


Angicos incomodou setores autoritários porque deu certo. A experiência foi concluída em abril de 1963 e ganhou repercussão nacional com a presença do então presidente João Goulart na cerimônia de encerramento. O resultado chamou a atenção do governo federal, que viu naquela prática uma possibilidade concreta de enfrentar, em escala nacional, a exclusão de milhões de brasileiras e brasileiros historicamente afastados do direito à leitura e à escrita.


Depois de Angicos, Paulo Freire foi convidado a contribuir com a construção de um plano nacional de alfabetização, pensado para levar os Círculos de Cultura a diferentes regiões do país. Em janeiro de 1964, o governo instituiu o Programa Nacional de Alfabetização, com base no Sistema Paulo Freire. O golpe civil-militar atingiu essa possibilidade histórica. A ditadura recém-instalada revogou o programa por decreto, interrompendo uma das iniciativas educacionais mais promissoras daquele período.


Pouco tempo depois, o êxito de Angicos levou Paulo Freire a ser chamado pelo Ministério da Educação para contribuir com a organização de uma política nacional de alfabetização. A proposta era espalhar os Círculos de Cultura pelo Brasil, alcançando milhões de jovens e pessoas adultas historicamente afastadas do direito à leitura e à escrita. Em janeiro de 1964, o governo João Goulart instituiu o Programa Nacional de Alfabetização, com base no Sistema Paulo Freire. O plano previa uma primeira etapa com milhares de círculos em todas as unidades da federação, formando educadoras e educadores para levar a alfabetização popular a diferentes regiões do país.


A reação veio pela violência. Com o golpe civil-militar, a alfabetização popular passou a ser tratada como ameaça política. O novo regime revogou o programa por decreto, determinou o recolhimento dos equipamentos e acervos utilizados e desmontou uma política pública que começava a ganhar escala nacional. Paulo Freire e companheiras e companheiros de trabalho foram presos, interrogados e colocados sob suspeita. Em Angicos, a memória das pessoas envolvidas na experiência também carrega esse tempo de medo: circularam acusações de comunismo, ameaças de prisão e relatos sobre a destruição de materiais utilizados no processo de alfabetização. A ditadura atacou a educação porque compreendeu o que estava em jogo: um povo aprendendo a ler, escrever, votar, discutir direitos e interpretar criticamente a realidade brasileira.



Léo Duarte, fotógrafo documental, comunicador popular e idealizador do Viralizando o Nordeste, e Maria da Cruz, educadora, pedagoga, pesquisadora e integrante do projeto, acompanharam a exibição no Reserva Cultural, dentro da programação da Mostra Ecofalante de Cinema. Realizada em São Paulo, a mostra reúne filmes voltados a questões socioambientais, direitos humanos, democracia, povos tradicionais, educação, desigualdades e outros temas centrais da vida pública.


Para o casal, o filme tem relação direta com suas próprias histórias. Ele aborda educação popular, comunicação comunitária, direitos humanos, escola pública e a luta para que pessoas historicamente excluídas também tenham acesso ao conhecimento, à palavra e à participação social.


Para Léo Duarte, o documentário também ajuda a entender por que Paulo Freire segue sendo transformado em ameaça por setores que sequer estudaram sua obra. A pergunta que fica, segundo ele, é outra: quem ganha quando um educador comprometido com a alfabetização do povo passa a ser tratado como risco para a sociedade?


“Eu saí de lá tentando entender por que tanta gente insiste em colocar Paulo Freire nesse lugar de ameaça. O que ele defendia era algo muito simples e profundo: que as pessoas tivessem acesso à educação e, com isso, pudessem ter uma vida melhor, ler o mundo, se reconhecer como sujeitos e mudar a própria realidade. Quem transforma isso em perigo, no fundo, está contra o povo brasileiro ter acesso à educação, à alimentação, à moradia, à terra para plantar, à saúde de qualidade e a uma vida digna”, afirmou Léo.


Para ele, parte da sociedade que sempre concentrou poder costuma apresentar como ameaça justamente quem luta por direitos. Essa inversão também aparece quando pessoas atingidas pela desigualdade acabam repetindo discursos contra educadoras, educadores, movimentos e políticas que poderiam melhorar suas próprias condições de vida. É o caso, nas palavras de Léo, da “barata defendendo o Baygon ou o chinelo”: uma imagem dura para falar de um país onde muita gente é levada a combater quem está do seu lado na luta por humanidade.


Para Maria da Cruz, o filme dialoga diretamente com sua trajetória como educadora, gestora escolar, pesquisadora e militante da educação pública. A experiência de Angicos reafirma uma compreensão que atravessa sua caminhada: a educação precisa reconhecer os sujeitos em sua inteireza, com suas histórias, seus territórios, seus saberes e suas condições concretas de vida.


“Uma coisa que achei muito interessante no documentário foi ver a continuidade dessa história. O filme mostra o neto de uma das pessoas que participou do processo de alfabetização em Angicos, hoje estudante de Pedagogia, dando continuidade, de alguma forma, ao trabalho de pesquisa na área da educação e da alfabetização. Isso dialoga com aquilo que Paulo Freire nos deixou: ele não queria ser meramente copiado, ele precisava ser reinventado”, afirmou Maria.


Depois da exibição, o público acompanhou um debate sobre o legado freireano, a educação popular e a atualidade da alfabetização como prática democrática. A mesa reuniu Catherine Murphy, documentarista independente e fundadora da Maestra Productions; Maurilane de Souza Biccas, professora livre-docente em História da Educação na Faculdade de Educação da USP; Paulo Marques, pesquisador e professor doutorado pela Faculdade de Educação da USP; e teve mediação de Marcelo Fonseca, coordenador de Educação a Distância no Instituto Paulo Freire, no projeto ALFA-EJA Brasil.


No debate, uma das contribuições centrais veio da fala de Paulo Marques, pesquisador doutorado pela Faculdade de Educação da USP, sobre as fichas de cultura usadas na experiência de Angicos. Ao explicar esses materiais, Paulo mostrou como imagens, palavras e cenas do cotidiano das pessoas educandas eram usadas para transformar a vida concreta da comunidade em caminho de alfabetização, diálogo e consciência crítica. A educação começava no chão de Angicos e voltava para ele com novas leituras e outras possibilidades de ação.


Paulo também trouxe uma cena pessoal que emocionou a sala. Ao falar de sua pesquisa sobre Paulo Freire, contou que sua própria mãe, presente na plateia, passou a escutá-lo tantas vezes sobre educação, alfabetização e pensamento freireano que decidiu retomar os estudos pela Educação de Jovens e Adultos. Ela concluiu essa etapa da formação e, ao ser mencionada, foi ovacionada pelo público. O relato aproximou a experiência histórica de Angicos das trajetórias atuais de tantas pessoas que retornam à escola depois de uma vida atravessada por trabalho, cuidado com a família e negação de direitos.


Outra reflexão importante partiu de Maurilane de Souza Biccas, professora livre-docente em História da Educação na Faculdade de Educação da USP, ao defender que a universidade brasileira assuma Paulo Freire com maior profundidade em suas práticas, pesquisas e ações institucionais. A observação aponta para uma contradição presente no campo educacional: Freire é frequentemente citado e homenageado, mas seu pensamento nem sempre chega com a mesma força à formação docente, à pesquisa acadêmica, à extensão universitária e ao cotidiano das instituições de ensino.


A fala de Catherine Murphy, documentarista independente, fundadora da Maestra Productions e uma das diretoras de Lendo o Mundo, trouxe uma dimensão internacional ao debate. A diretora relatou a emoção vivida durante a realização do documentário, especialmente ao acompanhar as expressões nos rostos das pessoas entrevistadas e a força das memórias compartilhadas diante da câmera. Ela também observou que Paulo Freire é bastante reconhecido em universidades norte-americanas, com homenagens em espaços ligados à educação, mas que a experiência específica de Angicos ainda é pouco conhecida nos Estados Unidos. Ao perguntar à plateia se conhecia essa história, ouviu uma resposta majoritariamente positiva, sinal de que, no Brasil, Angicos permanece como referência viva para quem acompanha a educação popular. O filme contribui para ampliar essa circulação, apresentando a públicos de outros países a raiz nordestina, popular e política da pedagogia freireana.


O debate também ganhou força pela presença de educadoras ligadas à trajetória de Paulo Freire na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, durante a gestão de Luiza Erundina. As intervenções trouxeram para a sala uma memória viva daquele período, quando Freire assumiu a secretaria e ajudou a criar políticas de educação popular, gestão democrática e valorização da escola pública na maior cidade do país. A presença dessas mulheres ampliou o sentido da sessão: o filme falava de Angicos, mas a conversa mostrava que o legado freireano seguiu atravessando outras experiências, outros territórios e outras gerações.


A mediação de Marcelo Fonseca, coordenador de Educação a Distância no Instituto Paulo Freire, no projeto ALFA-EJA Brasil, articulou memória, pesquisa, cinema, educação de jovens e adultos, alfabetização, universidade e prática popular. O debate reforçou a atualidade de Paulo Freire diante de um Brasil que ainda convive com exclusões educacionais, ataques à escola pública e tentativas permanentes de impedir que o povo produza consciência crítica sobre sua própria realidade.


A sessão também entrou no processo de organização da próxima etapa do Viralizando o Nordeste. Depois do esquenta realizado por Pernambuco, Paraíba e Bahia, Léo Duarte e Maria da Cruz estão articulando o retorno aos nove estados nordestinos. A fase atual envolve construção de parcerias, definição de filmes, fortalecimento de redes, organização de estrutura e preparação das ações de cinema, fotografia, audiovisual, comunicação popular, oficinas populares, rodas de conversa e escuta territorial.


Após a atividade, Léo Duarte e Maria da Cruz conversaram com Erika Hoffgen, integrante da equipe ligada à circulação do documentário, sobre a possibilidade de incluir Lendo o Mundo no Cine Nordeste em Debate, um dos projetos do Viralizando o Nordeste. A iniciativa nasce com a proposta de exibir filmes nacionais em territórios nordestinos onde o acesso às salas de cinema é limitado ou inexistente.


As sessões serão organizadas em espaços comunitários, escolas, associações, praças, equipamentos públicos, comunidades rurais, periferias urbanas, rodas de educadoras e educadores, encontros de juventude e espaços de organização popular. A estrutura será simples: projeção, som, tela possível e gente reunida para assistir e conversar. Depois de cada filme, a roda segue aberta para que a comunidade relacione a obra com sua própria realidade, suas memórias, seus conflitos, seus direitos e suas formas de organização.


No caso de Lendo o Mundo, a exibição teria uma força especial. O documentário fala de Angicos, de alfabetização popular e de um Nordeste que produziu uma das experiências pedagógicas mais importantes do país. Levar esse filme para comunidades nordestinas é fazer essa memória circular perto do chão onde ela nasceu, em diálogo com educadoras, educadores, estudantes, juventudes, trabalhadoras, trabalhadores e pessoas que seguem defendendo educação pública, cultura e dignidade. Ao levar Paulo Freire para a tela, o filme recoloca uma pergunta que segue aberta no Brasil: quem tem direito de ler o mundo e transformá-lo?


Para o Viralizando o Nordeste, essa pergunta seguirá pela estrada. Em cada território, Angicos poderá voltar ao presente pela fala de quem vive a educação pública, a comunicação popular, a luta por direitos e a esperança como prática coletiva.

 
 
 

1 comentário


sturza.demoraes
08 de jun.

Boa jornada! Tragam para o Sul.

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