Hamilton Borges lança “Escrevo para ser esquecido”, livro sobre violência policial e luta preta na Bahia
- 28 de jun.
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Autor baiano reúne textos sobre Salvador, violência policial, sistema prisional, periferias e luta contra a morte de jovens pretos e pretas pelo Estado.
Hamilton Borges dos Santos, o Walê, lançou “Escrevo para ser esquecido: recursos para destravar a alma”, pela Reaja Editora. O livro chega com um assunto que ele trata há décadas: a morte de jovens pretos e pretas pela polícia, o sistema prisional, o racismo e a forma como o Brasil tenta seguir a vida depois de cada enterro.
Hamilton nasceu no Curuzu, em Salvador. É poeta, escritor, educador e articulador cultural. Sua trajetória passa pelo movimento preto, pela literatura, por ações de formação política, por debates sobre o sistema prisional e pela convivência com famílias que perderam filhos e filhas para a violência policial.
A obra traz mais de 20 anos de luta contra o genocídio da população preta e a brutalidade policial na Bahia. A edição tem coordenação editorial de Alan Sampaio, editoração de Joel Correia, apresentação de Andreia Beatriz, prefácio de Emicida e orelha de Rebeca Vivas.
Hamilton Borges entre Salvador, Curuzu e literatura preta
Antes de “Escrevo para ser esquecido”, Hamilton já vinha tratando de violência policial, encarceramento, racismo e vida preta em livros como “Teoria Geral do Fracasso”, “Salvador, cidade túmulo”, “O Livro Preto de Ariel” e “Bantu Machine — O homem que queria ser branco”.
No romance “O Livro Preto de Ariel”, publicado pela Editora Reaja, aparecem temas que seguem no centro da escrita de Hamilton: violência policial, encarceramento, invasões militares em favelas de Salvador, a chacina do Cabula e a atuação de mulheres pretas diante do Judiciário baiano.
Em entrevista ao Alma Preta, Hamilton contou que procurava leitores e leitoras em vários lugares, inclusive no metrô. Esse dado mostra uma parte importante do trabalho dele: a circulação direta dos livros, feita no encontro com quem lê, compra, conversa, indica e acompanha sua produção.
A Bahia nos números da violência
O livro de Hamilton fala de uma realidade que aparece nos levantamentos públicos. O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, informa que o Brasil registrou 45.747 homicídios em 2023. No mesmo ano, 21.856 jovens de 15 a 29 anos foram assassinados/as, média de 60 mortes por dia.
Na Bahia, o dado sobre juventude pesa. O Atlas registra 113,7 homicídios por 100 mil jovens em 2023, uma das maiores taxas do país. É esse tipo de número que aparece por trás de cada conversa sobre segurança pública no estado. Quando mães, coletivos, escritores/as e organizações pretas falam em racismo, não estão fazendo discurso solto. Estão falando de quem morre, de onde morre e de quem raramente responde por essas mortes.
O recorte racial também é direto. Segundo o Atlas, pessoas pretas tiveram 2,7 vezes mais risco de morrer por homicídio do que pessoas não pretas em 2023. O relatório registrou 35.213 homicídios de pessoas pretas no país naquele ano.
A letalidade policial confirma a mesma lógica. O boletim Pele Alvo, da Rede de Observatórios da Segurança, informou que agentes de segurança mataram 4.025 pessoas nos estados monitorados em 2023. A Agência Brasil, ao noticiar o levantamento, destacou que quase 90% das vítimas eram pretas. Na Bahia, 94,6% das pessoas mortas por intervenção policial eram pretas.
Esses dados não são pano de fundo. Eles ajudam a ler o livro. Quando Hamilton Borges fala em genocídio da população preta, ele está nomeando um padrão: jovens mortos/as em bairros pobres, operações policiais com alto número de vítimas, prisões cheias, processos lentos, famílias obrigadas a provar a humanidade de quem perdeu a vida.
Reaja e a organização contra a morte
Hamilton Borges é um dos nomes da Reaja ou Será Mort@, articulação criada em Salvador, em 2005, no enfrentamento às mortes de jovens pretos e pretas pela polícia. O contexto era de revolta contra execuções, abordagens violentas, encarceramento em massa e casos tratados pelo Estado como se fossem rotina. A Reaja nasceu quando familiares, militantes, educadores/as, artistas e organizações pretas passaram a ocupar ruas, escadarias, praças e espaços públicos para dizer que essas mortes tinham nome, bairro, família e responsável.
A Campanha organizou atos, marchas, debates, denúncias públicas e ações de acompanhamento a famílias atingidas pela violência de Estado. Também passou a denunciar o sistema prisional como parte do mesmo problema. A morte pela polícia, a prisão em massa e a criminalização de jovens pretos e pretas aparecem, na leitura da Reaja, como peças de uma política que decide quem pode viver com proteção e quem vive sob suspeita permanente.
As mobilizações ganharam força em Salvador e passaram a dialogar com outros estados. A Marcha contra o Genocídio do Povo Preto levou às ruas a denúncia que muitas famílias já faziam dentro de casa, nos velórios, nas audiências, nas portas de delegacias e nas conversas com advogados/as. A palavra genocídio, nesse contexto, não aparece como exagero. Ela nomeia uma sequência de mortes, prisões, ameaças, invasões policiais e processos que raramente entregam justiça para famílias pretas.
A repressão também mirou a própria Campanha. Em 2015, a Justiça Global denunciou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA ameaças, perseguições e intimidações contra integrantes da Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, atribuídas a policiais militares da Bahia.
Para além de Salvador, a Reaja se tornou referência no território nacional entre movimentos, organizações, mães, familiares, educadores/as, artistas e militantes que denunciam a violência policial, o encarceramento e o genocídio da população preta.
A Reaja também ganhou circulação fora do Brasil. A Common Notions publicou “Rise Up or Die!: The Struggle Against the Genocide of Black People in Brazil”, de Andréia Beatriz Silva dos Santos e Hamilton Borges dos Santos.
Esse percurso ajuda a situar “Escrevo para ser esquecido”. O livro vem depois de anos de atos, debates, formações, denúncias, publicações, conversas com famílias e crítica direta ao sistema prisional. Hamilton escreve como autor e como alguém que colocou o próprio nome em enfrentamentos públicos contra a violência de Estado.
Por que essa história precisa ser viralizada
“Escrevo para ser esquecido” precisa viralizar porque reúne uma parte importante da luta contra a violência policial, o sistema prisional e o genocídio da população preta. A obra fala de vidas, famílias e territórios.
Para o Viralizando o Nordeste, essa pauta importa porque dialoga com temas que aparecem nas escutas do projeto: juventude preta, educação popular, abordagem policial, luto, prisão, formação política e direito à vida.
Salvador e o Curuzu ajudam a situar o livro. Hamilton escreve a partir de uma cidade onde literatura, movimento preto, terreiro, rua e denúncia estão presentes na vida pública. A Bahia aparece nos dados da violência policial e também nas pessoas que escrevem, publicam, formam jovens, organizam atos, acompanham famílias e cobram resposta do Estado.
Hamilton é irmão de Dhay Borges, que nos recebeu em Salvador e apresentou o trabalho do Coletivo Resistência Preta, que atua com juventude, mulheres, formação política, solidariedade, saúde e direitos humanos em territórios populares da capital baiana. Na conversa pelas ruas, Dhay apresentou a ideia de que “a periferia é central”, uma concepção ligada ao trabalho cotidiano do coletivo e ao modo como comunidades pretas organizam cuidado, denúncia e circulação pela cidade.
Essa história também encontra Léo Duarte em São Bernardo do Campo. Hamilton foi educador do Projeto Meninos e Meninas de Rua no período em que Léo era um dos educandos atendidos pelo projeto. Os dois viveram no Montanhão, favela da cidade. Por isso, quando “Escrevo para ser esquecido” chega ao Viralizando, o livro encontra uma lembrança de território, juventude e educação popular que já fazia parte da vida de Léo antes da estrada pelo Nordeste.
Escrever quando o país quer virar a página
O livro fala de um país em que mortes provocadas pela polícia são muitas vezes montadas como confronto. A versão plicial é a que fica; depois vêm as denúncias de execução, alteração da cena, remoção de corpos, provas plantadas, intimidação de testemunhas e investigação conduzida por instituições ligadas à própria polícia. Organizações de direitos humanos denunciam esse padrão há anos no Brasil.
A Human Rights Watch já apontou casos em que policiais executaram pessoas e tentaram encobrir os crimes, inclusive levando vítimas a hospitais sob falso pretexto de socorro e introduzindo provas nas cenas antes da chegada da perícia. No Cabula, em Salvador, a Justiça Global denunciou à ONU a execução sumária de 12 homens por policiais militares e registrou violações de direitos humanos no caso.
Hamilton Borges escreve para denunciar, ele fala de um Brasil que mata pessoas pretas e depois tenta organizar o silêncio. Na Bahia, esse silêncio encontra resposta em livro, ato, fala pública, terreiro, sala de formação, roda de leitura e organização política.
A escrita de Hamilton parte desse acúmulo. O livro reúne casos, nomes, bairros, famílias, prisões, processos e cobranças por justiça. Cada morte citada carrega uma casa, uma mãe, uma idade, um apelido, uma fotografia, uma roupa guardada e uma espera que o Estado tenta empurrar para o esquecimento.
Como adquirir o livro
Quem quiser adquirir “Escrevo para ser esquecido: Recursos para destravar a alma” deve acompanhar os canais de Hamilton Borges e da Reaja Editora. Nas redes sociais, o autor tem divulgado agendas de lançamento, entregas e formas de compra pelo e-mail hamilton_africano@yahoo.com.br ou pelo WhatsApp (71) 99226-2800.



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