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Maria da Cruz apresenta o Projeto Brincadas no Seminário Paulo Freire e defende a escola como território de escuta, vínculo e enfrentamento

  • 15 de mai.
  • 5 min de leitura

Na UFPE, a educadora levou ao debate a experiência de uma escola pública rural de Cajamar, marcada pela reconstrução pós-pandemia, pela formação continuada e pela coragem de transformar problemas reais do território em prática educativa.


A fala de Maria da Cruz no XV Seminário Paulo Freire carregou uma marca que atravessa sua trajetória: a defesa da escola pública como lugar de pensamento, vínculo, escuta e transformação. Ao apresentar a pesquisa sobre o Projeto Brincadas, desenvolvida a partir da experiência da EMEB Demétrio Rodrigues Pontes, escola pública rural de Cajamar, em São Paulo, Maria levou para o centro do debate uma pergunta que continua urgente: como formar educadoras e educadores sem separar a formação da vida concreta da escola?


O trabalho apresentado por Maria parte de uma pesquisa em andamento sobre formação continuada, políticas públicas, contradições e resultados educacionais preliminares em uma escola rural. A investigação observa como o Projeto Brincadas vem se articulando ao cotidiano escolar, ao fortalecimento do coletivo docente, à participação dos estudantes e à leitura crítica do território.


Durante sua exposição, Maria destacou que a escola precisou voltar a olhar para o próprio chão depois de um período profundamente difícil. A pandemia deixou marcas duras na educação pública brasileira, mas essas marcas não foram iguais para todas as comunidades. Em uma escola rural, a falta de acesso à internet, a dependência do celular das famílias e a instabilidade da conexão dificultaram o trabalho pedagógico, fragilizaram vínculos e ampliaram desigualdades já existentes.


Diante desse cenário, a pergunta não era simples: que escola nós somos depois de tudo isso? O que fazer quando a rotina volta, mas os vínculos precisam ser reconstruídos? Como reorganizar o trabalho educativo quando a comunidade ainda carrega perdas, ausências e dificuldades materiais?


Maria situou o ano de 2023 como tempo de retomada. Retomada da identidade institucional, das práticas pedagógicas e do sentido da escola. Foi nesse contexto que o Projeto Brincadas entrou no cotidiano da unidade, não como atividade externa deslocada da realidade local, mas como mediação formativa capaz de juntar professoras, professores, estudantes, pesquisadores e comunidade em torno de um processo de investigação, criação e ação coletiva.


A fala trouxe um ponto central: a escola não é espaço neutro que espera passivamente por diretrizes; ela é lugar político. Tem autonomia, tem história, tem sujeitos, tem conflitos, tem necessidades próprias. Maria lembrou que a comunidade escolar precisa debater a educação de forma responsável. Sendo parte de um sistema de ensino que congrega políticas públicas gerais, ela é também um todo que pensa e define, através de seu PPP — Projeto Político-Pedagógico —, suas escolhas e caminhos. Isso implica não negar as políticas públicas, mas perguntar quem são os sujeitos da escola, quais são suas condições reais e que projeto educativo está sendo construído.


Essa posição dialoga diretamente com Paulo Freire. A formação docente, na perspectiva apresentada por Maria, não pode ser reduzida a curso pronto, apostila, sistema padronizado ou orientação distante da vida escolar. Ela precisa nascer da leitura crítica da realidade, do diálogo e da práxis. A escola forma quando pensa sobre si mesma, quando escuta suas contradições e quando transforma o cotidiano em matéria de estudo e intervenção.


Um dos momentos mais fortes da apresentação foi o compartilhamento da experiência da escola com a falta de água. A escola enfrenta problemas recorrentes de abastecimento. A falta de água atravessa a rotina, afeta estudantes, famílias, professoras, professores e equipe gestora. Em vez de tratar o problema como assunto administrativo afastado do currículo, a comunidade escolar decidiu levá-lo para o processo pedagógico.


A água passou a ser tema de estudo, criação, denúncia e anúncio. No desfile de 7 de setembro, estudantes e educadores tematizaram publicamente a questão. A frase apresentada pela escola — “Independência é água” — deslocou o sentido tradicional da comemoração e colocou no espaço público uma reivindicação concreta do território. Houve, a partir daí, ajustes na entrega da água pelo caminhão-pipa, embora, pela condição de o bairro não dispor de rede encanada, ainda ocorra falta de água ocasionalmente.


Esse gesto tem força pedagógica e política. A escola não separou currículo e vida. Não fingiu que a falta de água estava fora do processo educativo. Pelo contrário: leu a realidade, organizou o debate, envolveu estudantes e devolveu à comunidade uma elaboração pública sobre o problema. É aí que a educação freireana aparece viva. Não como citação de parede, mas como prática: leitura do mundo, palavra coletiva e ação.


Maria também destacou a participação de estudantes em espaços externos à escola, como experiências ligadas ao direito de participação de crianças e adolescentes, olimpíadas e atividades de aprendizagem fora do território imediato. Ao relatar essas ações, ela mostrou uma escola que amplia horizontes sem abandonar sua raiz. A ruralidade não aparece como limite. Aparece como condição concreta de leitura, pertencimento e produção de conhecimento.


Os dados educacionais preliminares apresentados na pesquisa também indicam avanços importantes. No SARESP, a escola registrou evolução entre 2023 e 2025 nas turmas do 5º ano do Ensino Fundamental: a nota final passou de 4,3 para 5,9; a participação dos estudantes subiu de 86,5% para 91,2%; em Língua Portuguesa, o resultado avançou de 4,9 para 6,4; em Matemática, de 3,7 para 5,3. O ingresso de estudantes egressos na ETEC cresceu de 2, em 2022, para 17, em 2025.


A leitura feita por Maria, porém, não transforma os números em propaganda. Os resultados são vistos como parte de um conjunto de ações pedagógicas, institucionais e formativas. A própria pesquisa reconhece limites, especialmente em Matemática e na necessidade de ampliar os níveis mais altos de aprendizagem. Esse cuidado é fundamental. A escola pública não cabe em ranking. Seus resultados precisam ser lidos junto com território, vínculos, condições materiais, formação docente, participação estudantil e políticas públicas.


No Seminário Paulo Freire, essa fala encontrou um lugar coerente. O evento, realizado em Pernambuco, reuniu educadores, pesquisadores, grupos e cátedras ligados ao pensamento freireano. Para o Viralizando o Nordeste, acompanhar essa agenda fortalece uma dimensão essencial da travessia: a educação popular como parte da documentação social. O projeto nasceu para percorrer os estados nordestinos registrando memórias, histórias humanas, práticas educativas, culturas populares, movimentos sociais e experiências comunitárias que raramente ocupam os espaços centrais de circulação pública.


A presença de Maria nesse seminário também se liga ao papel que ela assume dentro do Viralizando o Nordeste. Educadora, pedagoga, gestora escolar e pesquisadora, ela responde pela mediação pedagógica, pela leitura educacional dos territórios e pelo diálogo com escolas, educadores, coletivos, comunidades e experiências de educação popular.


Por isso, sua fala na UFPE não foi uma agenda isolada. Ela abriu uma passagem importante entre pesquisa acadêmica, escola pública, território e comunicação popular. O Viralizando o Nordeste quer construir uma estrada que escute as comunidades, registre suas experiências e transforme esses encontros em memória pública. A apresentação de Maria mostrou que a escola também é território de memória. Também é lugar de disputa. Também é espaço onde se produz resistência.


Ao falar da escola rural de Cajamar, Maria não apresentou uma experiência pronta, fechada ou sem conflitos. Ela apresentou um processo em construção. Uma escola que enfrentou a pandemia, reorganizou práticas, retomou vínculos, olhou para a falta de água, envolveu estudantes, fortaleceu o coletivo docente e passou a compreender seus resultados dentro de uma caminhada maior.


No fundo, a fala deixou uma imagem potente: a escola como nascente. Uma nascente que precisa ser protegida, cuidada, escutada. Uma escola que ensina porque humaniza. Uma escola que se pergunta, todos os dias, o que ainda pode nascer de seu próprio chão.

Essa é também uma pergunta para o Viralizando o Nordeste.


Ao seguir pela estrada, o projeto não buscará somente paisagens, festas ou monumentos. Buscará escolas, educadoras, comunidades, experiências de formação, práticas de resistência e lugares onde o Nordeste pensa o próprio futuro. A fala de Maria da Cruz no Seminário Paulo Freire reafirma esse caminho: documentar é também aprender. Escutar é também formar. E toda travessia comprometida com o povo precisa carregar, no centro, a coragem de esperançar.

 
 
 

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