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Com Dhay Borges pelas ruas de Salvador, o Coletivo Resistência Preta mostra por que a periferia é central

  • 24 de jun.
  • 14 min de leitura

Pessoa negra de óculos trabalha em laptop com adesivos, em sala azul-turquesa com quadros coloridos e plantas em primeiro plano.
Na casa de Dhay Borges, no bairro da Saúde, em Salvador, o Coletivo Resistência Preta aparece entre plantas, arte, memória preta e trabalho comunitário.

Organização do movimento preto articula juventude, mulheres, economia periférica, solidariedade, saúde, direitos humanos e formação política em territórios da capital baiana


Chegamos ao Largo da Saúde, em Salvador, numa tarde quente de maio. A primeira parada da nossa passagem pela capital baiana foi a casa de Dhay Borges, articulador do Coletivo Resistência Preta, o CRP. A chegada já dizia alguma coisa sobre o território que encontraríamos nos dois dias seguintes: ruas antigas, casas com presença histórica, circulação popular, igreja, ateliês, centros culturais, vizinhos, ladeiras e uma Salvador que não cabe na imagem repetida dos cartões-postais.


Logo de fora, a pintura na fachada do espaço habitado por Dhay e sua companheira, Fabíola, já indicava que aquela não era uma casa comum. Ao entrar, a impressão se confirmava: havia quadros de lideranças pretas, símbolos e imagens ligados às religiões de matriz africana e outros elementos que apontavam para memória, identidade e resistência. A casa de Dhay parecia mais um espaço cultural do que uma residência propriamente dita. Ficamos admirados com a beleza do lugar e com a sensação de paz que o ambiente transmitia.


A recepção foi direta, generosa e sem cerimônia. Depois de muitos quilômetros de estrada, calor, cansaço acumulado e gravações feitas entre Pernambuco, Paraíba e outras cidades da Bahia, aquele encontro abriu uma conversa que atravessaria Salvador. Dhay nos recebeu como parte de uma grande família e nos conduziu por uma leitura da cidade atravessada pela memória preta, pela presença das religiões de matriz africana, pelos bairros populares e por histórias que raramente entram na narrativa oficial de Salvador.


Enquanto caminhávamos pela cidade, Dhay foi puxando histórias que ajudavam a entender Salvador para além dos pontos mais conhecidos. Falou do bairro da Saúde, da ligação com o Centro Histórico, da proximidade com o Pelourinho, Nazaré, a Arena Fonte Nova e, ao falar do Dique do Tororó, explicou a presença das esculturas dos orixás, a relação com as águas, as festas ligadas às religiões de matriz africana e a forma como esses lugares guardam parte importante da memória preta da cidade.


Aos poucos, essa leitura de Salvador levou a conversa para o Coletivo Resistência Preta. Dhay apresentou o CRP como uma plataforma social do movimento preto de Salvador, construída a partir das periferias da capital baiana e articulada com lideranças comunitárias, associações, centros culturais, creches, quilombos, grupos de linguagens urbanas, núcleos de juventude, terreiros, poetas, marisqueiras, pescadores e organizações de mulheres pretas. Essa forma de organização ajuda a entender o lema que orienta o coletivo: “A periferia é central”. A frase resume uma direção política: colocar os territórios populares no centro das decisões, das narrativas e das ações comunitárias.


Essa frase apareceu na conversa com Dhay como uma chave para ler Salvador. A cidade que se mostra ao turismo pelo Pelourinho, pelo Elevador Lacerda, pelo Mercado Modelo e pelas fachadas do Centro Histórico também é feita por bairros pretos, comunidades periféricas, terreiros, trabalhadores informais, jovens marcados pela violência, mulheres que sustentam famílias, artistas de rua, educadores populares, lideranças comunitárias e redes de solidariedade.


É nesse campo de disputa sobre a cidade que o Coletivo Resistência Preta atua. Dhay explicou que a presença pública do CRP cresceu a partir de 2020, quando ele passou a intensificar a articulação de lideranças pretas e periféricas em Salvador. Esse ciclo recente de organização ampliou a circulação do coletivo nas pautas de equidade racial, desenvolvimento comunitário, formação política, cultura, solidariedade e defesa de direitos.

Dhay falou do CRP a partir dessa relação direta com os territórios. Falou de rede, de lideranças e de trabalho cotidiano em comunidades onde muitas famílias enfrentam fome, desemprego, informalidade, violência, racismo institucional, racismo religioso contra terreiros, revistas policiais abusivas contra jovens pretos, falta de apoio para artistas periféricos, dificuldade para manter pequenos negócios e necessidade de cestas básicas, orientação, cuidado e espaços de escuta.



Do Largo da Saúde ao Parque São Bartolomeu


Praça de Oxum em parque tropical, com placa central, trilhas, bancos e vegetação exuberante sob céu azul.
Praça de Oxum, no Parque São Bartolomeu, em Salvador, espaço de mata, memória preta e referência sagrada para as religiões de matriz africana.

A conversa com Dhay foi ganhando a cidade e nos levou até o Parque São Bartolomeu. Ele queria nos mostrar aquele território porque o parque ajuda a entender uma parte importante de Salvador: a memória preta, a presença das religiões de matriz africana, a natureza dentro da cidade e as histórias de resistência popular ligadas ao Subúrbio Ferroviário.


No caminho, Dhay chamava atenção para uma Salvador que não aparece inteira nos catálogos consumidos pelo turismo. Falava das ruas, dos bairros, das águas, dos terreiros, das comunidades e das formas de organização que sustentam a vida popular da cidade. A cada explicação, ficava mais evidente que a atuação do Coletivo Resistência Preta nasce dessa relação direta com os territórios.


No Parque São Bartolomeu, conversamos também com Vandison, gestor do espaço, que apresentou aspectos da história local. A presença de Dhay naquele roteiro mostrava uma característica importante do CRP: aproximar pessoas, conectar histórias, abrir caminhos e colocar a memória preta no centro da conversa.


Uma rede construída a partir das necessidades dos territórios


Mapa aéreo de Salvador com punhos vermelhos marcando Valéria, Periperi, Cabula/UNEB, IAPI, Nordeste de Amaralina e outros bairros.
Imagem ilustrativa destaca territórios ligados às frentes de juventude, mulheres, economia periférica, solidariedade e formação política do Coletivo Resistência Preta em Salvador. A marcação dos pontos não representa georreferenciamento exato nem lista completa das áreas de atuação do coletivo.

O Coletivo Resistência Preta atua em várias frentes porque a vida nas periferias de Salvador, assim como em tantas outras metrópoles, envolve muitas necessidades ao mesmo tempo. Em uma mesma comunidade, uma família pode enfrentar falta de renda, comida escassa, dificuldade de acesso ao trabalho, ausência de espaços públicos de cultura, lazer, esporte e formação, além da violência que atinge jovens pretos nas ruas e mulheres pretas dentro e fora de casa.


É nesse cotidiano que a atuação do CRP ganha sentido: nas ações com juventude, mulheres, economia periférica, solidariedade, saúde, direitos humanos, formação política e participação comunitária.


Juventude preta e direito de circular


Grupo diverso posa em sala de aula, segurando faixa vermelha do Coletivo Resistência Preta; clima alegre.
Integrantes do Coletivo Resistência Preta durante atividade do Projeto Circulô, iniciativa do CRP Juventude voltada à formação política, cultura, direitos humanos e direito à cidade em Salvador — Foto: Reprodução/ANF — Agência de Notícias das Favelas. Matéria assinada por Wal Melo.

Uma das frentes mais estruturadas do coletivo é o CRP Juventude. O núcleo atua com jovens periféricos em uma cidade onde corpos pretos ainda são tratados como suspeitos nas ruas, nos bairros, nos ônibus, nas praças e nos deslocamentos cotidianos. Para muitos, sair de casa significa sofrer com revistas policiais violentas e abusivas, intimidação, criminalização pela forma que se veste e pelo endereço onde mora.


O Projeto Circulô é a principal iniciativa dessa frente. Criado para fortalecer jovens pretos por meio de formação política, cultura, rodas de conversa, oficinas e debates, o projeto trabalha temas como direitos humanos, luta antirracista, direito à cidade, proteção territorial, identidade racial e gênero.


O nome Circulô simboliza a ideia de roda, encontro, deslocamento e troca. Nas atividades, as/os participantes são chamados/as a produzir linguagem, elaborar propostas, registrar experiências, denunciar violações e pensar a cidade a partir de seus próprios territórios.


Dois jovens sorridentes apontam para cartaz do Círculo na Escolas num corredor escolar claro; destaque para 29/05 e 14 de maio.
Educadores do Circulô nas Escolas durante atividade “A Memória, o Agora e o Sonho”, realizada com estudantes em Nazaré-BA, com diálogos sobre território, educação ambiental, cartografia social, escrevivência e os impactos da contaminação do Rio Jaguaripe — Foto: Reprodução/Instagram — Circulô / Coletivo Resistência Preta

A edição Circulô 3.0 — “Andar Tranquilamente na Favela em que Nasci” — tornou essa proposta ainda mais direta. O título fala do direito de viver no próprio bairro sem medo, sem criminalização e sem violência. Fala do direito de sair, voltar, encontrar amigos, estudar, trabalhar, produzir cultura e ocupar a rua sem que sua presença seja tratada como ameaça.

A iniciativa trabalha com dança, capoeira, grafite, escrita criativa, percussão, batalhas de poesia e produção de podcast. Essas linguagens fazem parte da formação e permitem que os/as jovens elaborem o que vivem, nomeiem violências, fortaleçam vínculos e construam outra imagem sobre si mesmos e sobre seus territórios.


O PodCircular, desdobramento do projeto, registra histórias e experiências de juventudes periféricas de Salvador. A comunicação entra como prática de formação e presença pública. Quando jovens narram seus bairros, suas ruas, suas memórias e suas denúncias, a cidade é obrigada a escutar sujeitos que quase sempre aparecem nos noticiários pela suspeita, pela violência ou pela morte.


Na conversa com Dhay, essa frente apareceu como parte essencial da atuação do CRP. Organizar juventude preta, em Salvador, é enfrentar uma disputa pela vida. O direito de estudar, trabalhar, criar, circular, falar e existir sem ser tratado como ameaça está no centro dessa pauta.


Mulheres pretas, trabalho e economia periférica


Grupo diverso posa em praça com dois painéis de arte; cartaz ao fundo diz PERI-FEIRAS PRETAS.
Integrantes e participantes da Peri-Feiras Preta, iniciativa do Coletivo Resistência Preta voltada à economia criativa, ao empreendedorismo periférico e à valorização da produção preta em Salvador — Foto: Divulgação / Alô Alô Bahia

O CRP Mulher reúne formação política, acolhimento, acesso a direitos, saúde, autonomia econômica e enfrentamento às desigualdades que atingem mulheres nas periferias.


Em Salvador, mulheres das periferias, em sua grande maioria pretas, sustentam redes familiares, terreiros, pequenos negócios, iniciativas culturais, ações solidárias e espaços comunitários. Muitas fazem isso em meio a jornadas longas, baixa renda, trabalho informal, racismo, machismo, violência dentro e fora de casa, sobrecarga no cuidado de crianças e idosos, dificuldade de acesso à saúde, à moradia, à proteção social e a políticas públicas que cheguem de fato aos bairros populares.


Feira com duas mulheres sorrindo, exibindo xequerês e bonecas artesanais; placa ao fundo diz Produção de Xequerês.
Empreendedoras expõem peças artesanais durante edição da Peri-Feiras Pretas no Bairro da Paz, em Salvador, iniciativa voltada à economia solidária, ao empreendedorismo preto e ao fortalecimento de pessoas empreendedoras nas comunidades — Foto: Reprodução/Instagram — Coletivo Resistência Preta

As Peri-feiras Pretas entram nesse campo como ação de economia criativa e organização comunitária. A iniciativa reúne empreendedoras, artesãs, cozinheiras, produtoras culturais, criadoras de moda, artistas e trabalhadoras de diferentes bairros. As feiras ocupam praças e espaços públicos com gastronomia afro-baiana, artesanato, moda, música, dança, poesia, capoeira, venda de produtos e circulação de serviços.


Dhay apresentou as Peri-feiras Pretas como uma forma de fortalecer renda e ampliar a visibilidade de uma produção que já existe nas periferias, mas que enfrenta obstáculos diários: pouco acesso a crédito, dificuldade para formalizar e manter o negócio, baixa divulgação, custo de deslocamento com mercadorias, falta de estrutura para produzir e vender, pouca familiaridade com ferramentas digitais, renda instável, sobrecarga doméstica e discriminação racial e de gênero nas relações comerciais.


Doa Salvador e a cultura de doação


Homem de camiseta amarela fala a um grupo de mulheres reunidas sob uma grande árvore em parque, ao ar livre.
Dhay Borges fala com moradores e moradoras durante ação do Coletivo Resistência Preta de distribuição de alimentos orgânicos fornecidos pelo MST, em Salvador — Imagem: Reprodução/Globoplay — BATV/TV Bahia

Dhay nos contou que a solidariedade é uma das bases do Coletivo Resistência Preta. No CRP, essa prática aparece com força no Doa Salvador, campanha articulada pelo coletivo em diálogo com outras instituições para fortalecer entidades comunitárias e apoiar populações em situação de vulnerabilidade.


A campanha reúne organizações ligadas à cultura, saúde, meio ambiente, luta antirracista, crianças e adolescentes, mulheres e iniciativas de base. A proposta é aproximar doadores de redes que já atuam nos territórios e conhecem de perto as necessidades das comunidades.


A solidariedade é uma prática constante na vida de Dhay, um hábito herdado da família. Talvez sua primeira experiência do tipo tenha sido observar a avó compartilhando água de uma fonte com as pessoas que precisavam. Essa experiência ajuda a entender por que, para ele, doar está ligado à responsabilidade coletiva.


Cestas básicas e combate à fome


Praça com crianças, sacos de mantimentos e pessoas sentadas; lojas agibank, VIP MODAS e Mercina's ao fundo.
Cestas básicas organizadas pelo Coletivo Resistência Preta, prontas para distribuição durante a campanha “Você tem fome de quê?”, realizada em comunidades de Salvador para apoiar famílias em situação de vulnerabilidade  — Foto: Reprodução/Instagram — Coletivo Resistência Preta

Entre as ações do CRP está o programa de arrecadação e distribuição de cestas básicas. A frente responde diretamente à insegurança alimentar em territórios periféricos de Salvador.


A fome nas periferias tem origem social e racial. Ela se relaciona ao desemprego, à informalidade, aos baixos salários, ao custo de vida, à ausência de políticas públicas e à concentração de renda. Quando lideranças comunitárias organizam a distribuição de alimentos, o gesto atende uma necessidade imediata e permite identificar outras demandas das famílias.


O CRP já realizou ações de arrecadação com apoio de lideranças e redes locais. Também realizou entrega de alimentos orgânicos do MST para famílias vulnerabilizadas. Essas campanhas dialogam com a atuação mais ampla do coletivo, que combina solidariedade, escuta e organização.


A cesta básica, no trabalho do CRP, entra como parte de uma rede. Ela chega junto com a conversa, o encaminhamento, a campanha, o debate público e a tentativa de manter famílias de pé em períodos de maior dificuldade.


Saúde, sangue e cuidado coletivo


Quatro pessoas sorridentes em evento de doação de sangue, com camisetas vermelhas e amarela, sentadas em ambiente interno.
Participantes da campanha Doe Resistência durante mobilização do Coletivo Resistência Preta para incentivar a doação de sangue em Salvador — Foto: Reprodução/Instagram — Coletivo Resistência Preta

O coletivo também participa de campanhas de saúde e cuidado comunitário. Uma das ações públicas é a mobilização para doação de sangue, com o mote “Doe resistência, doe vida!”, em parceria com instituições públicas e organizações sociais.


Essa frente mostra a periferia como lugar que também oferece ajuda, cuida e se mobiliza na defesa da saúde pública. A ação chama moradores/as das periferias para participar da política pública de saúde e reforça a ideia de que cuidado coletivo também é resistência.


No conjunto das ações do CRP, saúde se conecta à alimentação, à proteção da juventude, ao enfrentamento da violência, ao cuidado com mulheres, à infância, ao acesso a serviços e à defesa da vida.


CRP Erê e o cuidado com as novas gerações


Grupo reunido ao ar livre em jardim tropical, sentado em cadeiras e esteiras, ouvindo palestrante sob telhado de cerâmica.
O CRP Erê expressa a atenção do Coletivo Resistência Preta às crianças e novas gerações nos territórios pretos de Salvador — Foto: Reprodução/Instagram — Coletivo Resistência Preta

O CRP Erê é um dos núcleos do Coletivo Resistência Preta e aponta para o cuidado com crianças e novas gerações. A palavra erê se relaciona ao universo da infância e tem forte presença em referências afro-brasileiras, especialmente nas religiões de matriz africana.


Dentro de uma organização preta, essa frente aponta para uma preocupação importante. Crianças pretas enfrentam desigualdades desde cedo: racismo na escola, insegurança alimentar, falta de espaços de cultura e lazer, violência nos territórios, racismo religioso e acesso desigual a serviços públicos. Qualquer ação voltada à infância preta precisa partir da proteção integral, da valorização da identidade e do cuidado comunitário.


CRP Convida e plenárias comunitárias


Jovem fala ao microfone para plateia sentada em sala de conferências com cadeiras azuis; clima atento e participativo.
O CRP articula espaços de conversa pública para fortalecer a participação política e transformar demandas dos territórios em agenda coletiva — Foto: Reprodução/Instagram — Coletivo Resistência Preta

O CRP Convida é a frente de diálogo público do coletivo. A iniciativa abre espaço para conversas, debates e escuta sobre temas de interesse das comunidades pretas e periféricas. Essa atuação se conecta às plenárias populares comunitárias organizadas pelo CRP, que discutem eleições, políticas públicas, direitos e demandas dos territórios.


A importância dessas plenárias está na inversão da lógica tradicional da política. A periferia não entra apenas como público convocado para ouvir propostas prontas. Entra como sujeito que formula, cobra, debate e apresenta suas próprias pautas. Moradia, transporte, segurança pública sem violência de Estado, cultura, educação, saúde, saneamento, trabalho, proteção da juventude preta e combate ao racismo religioso são temas que atravessam essas comunidades todos os dias.


Ao organizar espaços de conversa pública, o CRP fortalece a participação política e ajuda a transformar demandas locais em agenda coletiva.


Núcleo Sociojurídico e acesso a direitos


Três manifestantes diante da Secretaria da Segurança Pública, com camisetas Coletivo Resistência Preta e cartaz ao fundo.
O Núcleo Sociojurídico do Coletivo Resistência Preta orienta comunidades diante de violações de direitos, como racismo institucional, violência policial, despejos, racismo religioso e barreiras no acesso à Justiça Foto: — Reprodução/Instagram — Coletivo Resistência Preta

O Núcleo Sociojurídico é outra frente entre as ações do Coletivo Resistência Preta. A existência de uma área sociojurídica em uma organização preta periférica responde a violações frequentes nos territórios: racismo institucional, violência policial, despejos, violência contra mulheres, racismo religioso, criminalização da juventude preta, dificuldade de acesso a benefícios, falta de documentação e barreiras no acesso à Justiça.


Mesmo quando não substitui os serviços públicos, uma frente sociojurídica pode orientar moradores/as, traduzir informações, encaminhar demandas e fortalecer a proteção comunitária. Para muitas famílias, saber onde denunciar, como acessar um direito ou qual serviço procurar já faz diferença.


Trabalho, renda e empregabilidade


Grupo diverso posa sorrindo com punhos erguidos em corredor interno, portas verdes e piso xadrez ao fundo.
Integrantes do Coletivo Resistência Preta em registro de organização comunitária, formação política e articulação de redes do movimento preto em Salvador — Foto: Reprodução/Negras do Nordeste

A jornada de empregabilidade é outra das várias ações ligadas ao CRP e dialoga com uma das questões centrais da população preta periférica: o acesso ao trabalho digno. Falar em empregabilidade, nesse caso, não significa apenas preparar currículo. Significa enfrentar racismo nas contratações, discriminação estética, exclusão digital, informalidade, baixa remuneração, dificuldade de transporte e falta de redes de indicação.


Essa frente se aproxima das ações de economia criativa, mas amplia o debate. O CRP coloca renda, autonomia econômica e trabalho digno dentro da agenda antirracista. Sem renda, a defesa de direitos fica incompleta. Sem enfrentar o racismo no mercado de trabalho, a desigualdade continua se reproduzindo.


Comunicação popular e disputa de imagem


Dois jovens com microfones em ato, diante de faixa preta e vermelha com texto Coletivo Resistência Preta, em sala iluminada.
Em atividade pública do Coletivo Resistência Preta, a palavra circula como instrumento de formação, articulação e afirmação dos territórios pretos de Salvador — Foto: Reprodução/Instagram — Coletivo Resistência Preta

A atuação do Coletivo Resistência Preta também passa pela comunicação. O coletivo divulga campanhas, registra ações, participa de entrevistas, circula nas redes sociais e fortalece a presença pública das periferias pretas de Salvador.


Essa comunicação disputa a imagem da cidade. Durante muito tempo, bairros pretos e periféricos foram mostrados quase sempre pela violência, pela pobreza ou pelo exotismo. O CRP constrói outra narrativa: periferia como lugar de cultura, trabalho, juventude, fé, cuidado, economia, solidariedade e pensamento político.


Quando jovens produzem podcast, mulheres ocupam feiras, lideranças convocam plenárias e campanhas circulam pelas redes, a periferia deixa de ser apenas assunto e passa a ser produtores/as de narrativas. Essa é uma das forças da comunicação popular: fazer com que os territórios contem a si mesmos, com suas palavras, imagens, prioridades e contradições.


Uma Salvador vista por dentro


Homem idoso de camisa azul senta-se entre plantas num mercado coberto, com barracas coloridas, pessoas ao fundo e letreiro parcial.
Nas ruas e mercados de Salvador, a presença preta aparece no trabalho, na fé, nas ervas, nos pequenos comércios e nos saberes que sustentam a vida popular da cidade.

A passagem por Salvador deixou uma compreensão mais concreta do Coletivo Resistência Preta. O encontro começou na casa de Dhay Borges, no Largo da Saúde, seguiu pelas ruas da cidade e chegou ao Parque São Bartolomeu, no Subúrbio Ferroviário. Nesse percurso, o CRP apareceu ligado a uma Salvador preta, popular, religiosa, trabalhadora, criativa e comunitária.


O coletivo se organiza em uma cidade onde a presença preta está nas famílias, nos terreiros, nas feiras, nos bairros periféricos, nas cozinhas, nas ruas, nos pequenos negócios, nas iniciativas culturais, nas redes de cuidado e nas formas de resistência cotidiana. É dessa Salvador que saem as frentes de juventude, mulheres, economia periférica, solidariedade, saúde, infância, direitos, empregabilidade, comunicação e participação política.


A frase “A periferia é central” ganha sentido quando observada no movimento do próprio coletivo. Está na juventude que reivindica o direito de circular sem medo, nas mulheres que fortalecem renda e redes comunitárias, nas campanhas que enfrentam a fome, nas ações de cuidado, nas plenárias, nas feiras, nos podcasts, nas formações e na memória preservada nos territórios.


O Coletivo Resistência Preta afirma a periferia como parte decisiva de Salvador. É lugar de cultura, economia, solidariedade, fé, memória, direitos e organização política. Vista a partir do encontro com Dhay, a cidade aparece menos pela imagem pronta do turismo e mais pelos territórios que sustentam sua história todos os dias.


Somos gratos por ter conhecido a Baía de Todos-os-Orixás


Grupo na Praça de Oxum: homens conversam e mulheres posam sorrindo, com placa de madeira e rua histórica ao fundo.

A passagem por Salvador ainda pede um levantamento mais cuidadoso de tudo que vivemos nesses dias: a chegada ao Largo da Saúde, a acolhida na casa de Dhay e Fabíola, o caminho pelo Centro Antigo, a ida ao Parque São Bartolomeu, a conversa com Vandison, os relatos sobre memória preta, religiosidade, território, juventude, cultura, cuidado e organização comunitária. Cada registro feito ali ajuda a compreender melhor a força do Coletivo Resistência Preta e a cidade que conhecemos ao lado de Dhay.


Fica também nosso agradecimento a Dhay Borges e Fabíola pela acolhida, pela confiança e pelo tempo dedicado ao Viralizando o Nordeste. Agradecemos a Vandison, aos trabalhadores e trabalhadoras, às lideranças, às crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos que fazem parte dos projetos, das redes e das ações ligadas ao Coletivo Resistência Preta. A presença de cada pessoa envolvida mostrou que o CRP existe porque há gente sustentando essa construção todos os dias, nos bairros, nas feiras, nas campanhas, nas rodas, nas formações, nas ações de cuidado e nas lutas por direitos.


Entre tudo que vivemos em Salvador, uma compreensão ficou mais forte: quando o povo preto se organiza, a esperança deixa de ser uma palavra solta. Ela aparece na juventude que reivindica o direito de circular sem medo, nas mulheres que fortalecem renda e redes comunitárias, nas campanhas que enfrentam a fome, nas ações de saúde, nas crianças cuidadas, nas lideranças que seguem reunindo pessoas e nos territórios que continuam produzindo cultura, memória, solidariedade e futuro. O Coletivo Resistência Preta nos mostrou isso de perto.


Finalizamos com um profundo sentimento de gratidão ao nosso irmão Dhay Borges, gigante na palavra, no gesto e na forma de afirmar a vida preta em Salvador. Ele nos apresentou uma cidade feita pela força dos territórios, pela memória dos orixás, pela organização comunitária e pela resistência do povo preto. Na Salvador que caminhamos com ele, vimos um pedacinho da imensa Baía de Todos-os-Orixás.

 
 
 

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