SEMINÁRIO PAULO FREIRE EM PERNAMBUCO ESTÁ NA ROTA DO VIRALIZANDO O NORDESTE
- 9 de mai.
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Maria da Cruz apresentará pesquisa sobre o Projeto Brincadas na UFPE, em uma das primeiras agendas formativas da travessia nordestina
A estrada do Viralizando o Nordeste ainda está sendo preparada, mas já tem uma primeira direção marcada pela educação popular. Entre os dias 12 e 14 de maio de 2026, em Recife, Maria da Cruz participará do XV Seminário Paulo Freire e do XIII Encontro de Cátedras e Grupos Paulo Freire, realizados pela Cátedra Paulo Freire da Universidade Federal de Pernambuco.
A presença de Maria no encontro integra uma etapa importante de articulação do projeto em Pernambuco. Antes de a travessia ganhar corpo pelas comunidades, escolas, territórios de memória e experiências populares do Nordeste, o caminho passa por um espaço de reflexão sobre formação docente, políticas públicas e resistência.
O tema desta edição do seminário será “Formação de professoras(es): políticas públicas, contradições e resistências”, com atividades presenciais na UFPE e na UniFAFIRE, reunindo mesas de diálogo, rodas de conversa, sessão memória, apresentações culturais, lançamento de livros e sessões de pôsteres orais.
Maria apresentará o trabalho “Projeto Brincadas, formação continuada e resultados educacionais preliminares em uma escola pública rural de Cajamar/SP: políticas públicas, contradições e resistências”. A pesquisa foi aceita para compor a programação do seminário e nasce de sua trajetória como educadora, pesquisadora e militante da educação pública.
Essa agenda dialoga diretamente com o Viralizando o Nordeste, projeto idealizado por Léo Duarte e desenvolvido em parceria com Maria da Cruz, com a proposta de percorrer os estados nordestinos registrando histórias, territórios, memórias, práticas educativas, culturas populares, movimentos sociais, experiências comunitárias e sujeitos pouco presentes nas narrativas de maior circulação.
A expedição combina fotografia documental, audiovisual, textos, entrevistas, rodas de conversa, oficinas e construção de um acervo público de memória social. Pernambuco aparece nessa primeira etapa como território de encontro entre estrada, formação e pensamento freireano.
Recife carrega uma força simbólica profunda para quem pensa educação popular no Brasil. Estar na UFPE, em um seminário dedicado a Paulo Freire, permite ao projeto iniciar sua rota por um campo que atravessa toda a proposta da expedição: a escuta dos territórios como prática política e pedagógica.
A pesquisa que Maria levará ao seminário analisa a participação da EMEB Demétrio Rodrigues Pontes, escola pública rural de Cajamar, em São Paulo, no Projeto Brincadas. O estudo observa como essa experiência se relaciona com formação continuada de professoras e professores, fortalecimento do coletivo escolar, participação democrática, políticas públicas e resultados educacionais preliminares.
O trabalho parte de uma escola marcada por desafios concretos. Durante o período remoto da pandemia de COVID-19, a unidade enfrentou dificuldades severas de acesso à internet, dependência do celular das famílias e instabilidade de conexão. Esses problemas fragilizaram vínculos escolares e comprometeram interações pedagógicas.
Nos documentos analisados pela pesquisa, o ano de 2023 aparece como momento de reconstrução da identidade institucional e reorganização das práticas pedagógicas. Foi nesse contexto que a escola iniciou sua participação no Projeto Brincadas.
A pesquisa não olha para a escola como número solto em relatório. Parte da vida real: uma comunidade rural, atravessada por desigualdades, tentando reconstruir vínculos depois de um período muito desafiador para uma escola pública brasileira em uma comunidade rural.
Esse ponto aproxima o trabalho da tradição freireana, porque a formação docente aparece vinculada à leitura crítica da realidade, ao diálogo e à ação coletiva.
Um dos exemplos apresentados no trabalho é a tematização da água no desfile de 7 de setembro. A falta de água vivida pela comunidade escolar foi incorporada ao processo educativo por estudantes participantes do Projeto Brincadas, em um percurso de imersão, emersão e inserção pública.
A água deixou de ser apenas um problema cotidiano e passou a ser tema de estudo, criação, denúncia e anúncio, promovendo um movimento de desencapsulação curricular.
Esse episódio revela uma escola que não separa currículo e vida. A água, nesse caso, não aparece como conteúdo distante, mas como sofrimento ético-político vivenciado pela comunidade escolar e, portanto, como currículo. Surge como questão concreta do território, capaz de mobilizar estudantes, educadores e comunidade.
A escola lê aquilo que vive, transforma a dificuldade em elaboração coletiva e leva essa leitura para o espaço público.
É nessa chave que a apresentação de Maria interessa ao Viralizando o Nordeste. A expedição também parte da escuta do território. Cada lugar visitado será compreendido como espaço de memória, conflito, saber, criação e resistência.
A metodologia do projeto não pretende transformar comunidades em cenário. A intenção é construir registro com presença, responsabilidade e diálogo.
O trabalho de Maria também apresenta resultados educacionais preliminares. No SARESP, a escola registrou evolução entre 2023 e 2025 nas turmas do 5º ano do Ensino Fundamental. A nota final passou de 4,3 para 5,9; a participação dos estudantes subiu de 86,5% para 91,2%; em Língua Portuguesa, o resultado avançou de 4,9 para 6,4; em Matemática, de 3,7 para 5,3. O ingresso de estudantes egressos na ETEC cresceu de 2, em 2022, para 17, em 2025.
A análise, porém, evita transformar esses dados em discurso de propaganda. Os avanços são lidos dentro de um conjunto de ações pedagógicas, institucionais e formativas. O estudo também reconhece limites, especialmente em Matemática e na necessidade de ampliar os níveis mais altos de proficiência.
Esse cuidado é essencial, porque a escola pública não pode ser reduzida a ranking, meta ou planilha.
O tema do seminário encontra nessa experiência uma expressão concreta. As contradições aparecem nas condições materiais enfrentadas pela escola rural. As políticas públicas aparecem nas avaliações externas, nos direitos educacionais e nas disputas pela formação docente. As resistências aparecem na reorganização do coletivo escolar, na escuta dos estudantes, na participação pública e na recusa de uma educação limitada à obediência burocrática.
A trajetória de Maria da Cruz dá corpo a essa leitura. Educadora, pedagoga, gestora escolar e pesquisadora, ela tem caminhada ligada à educação popular, à Educação de Jovens e Adultos, à gestão pública da educação, ao Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, à formação cidadã e ao pensamento freireano.
No Viralizando o Nordeste, sua presença fortalece a mediação pedagógica, o diálogo com escolas e comunidades e a construção de processos formativos ao longo da estrada.
Por isso, o seminário em Pernambuco será registrado como uma das primeiras agendas formativas da travessia. A participação de Maria da Cruz na UFPE abre caminho para diálogos com educadores, pesquisadores, grupos freireanos, instituições e experiências de educação popular.
Também permite ao projeto iniciar sua documentação a partir de um lugar estratégico: a universidade pública como espaço de memória, debate e defesa da educação pública, laica e gratuita para todos.
O Viralizando o Nordeste nasceu para enfrentar imagens simplificadas sobre a região. Sua proposta é construir uma narrativa enraizada na dignidade dos sujeitos, na memória social, nas culturas populares, nas práticas educativas e na inteligência coletiva do povo nordestino.
Nesse percurso, a educação pública ocupa lugar central. Escolas, professoras, estudantes, projetos formativos e experiências de participação também compõem a cartografia viva do Nordeste.
A presença no Seminário Paulo Freire ajuda a afirmar esse caminho. Antes de seguir para outros pontos da rota, o projeto passa por um espaço onde a palavra, a escuta e a formação são compreendidas como instrumentos de transformação social.
Maria levará à UFPE uma pesquisa construída no chão da escola pública rural, em um exercício de humanização desse espaço educativo, orientado pelo olhar curioso e didático de quem busca reconhecer, junto à comunidade, o inédito viável.
O horizonte desse trabalho é a utopia freireana como referência para construir uma escola que ensina porque humaniza educandas, educandos e educadores, reacendendo diariamente o esperançar que nos move.
O Viralizando o Nordeste acompanhará essa agenda como parte de sua própria preparação. A travessia ainda está se organizando. Mas já começa com um gesto importante: colocar Paulo Freire, a escola pública e a educação popular no centro da estrada.



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