top of page

São João com dinheiro público: quando o forró vira coadjuvante na própria festa

  • 30 de jun.
  • 7 min de leitura
Trio de musicistas negras toca em festa ao ar livre, com acordeão, tambor e triângulo sob bandeirinhas coloridas.

Cachês milionários pagos a artistas sertanejos nos festejos juninos reacendem o debate sobre tradição, mercado e respeito ao forró de raiz no Nordeste


O São João nordestino virou palco de uma denúncia que vai além da programação musical. Nas redes sociais, nos bastidores da cultura e nos painéis de transparência, o tema passou a circular com força: quem está ocupando o centro financeiro e simbólico da maior festa popular do Nordeste? O debate sobre o São João com dinheiro público ganhou força porque envolve tradição, transparência e o lugar do forró de raiz na maior festa popular do Nordeste.


São João com dinheiro público: quem fica no centro da festa?


A crítica não é contra a presença do sertanejo, do axé, do pagode, do piseiro, do arrocha ou de outros ritmos. Festa popular sempre teve mistura. O problema está na forma como o dinheiro público vem sendo distribuído. Em muitos municípios, artistas de mercado recebem os maiores cachês, ocupam os horários mais valorizados e aparecem como atração principal, enquanto o forró de raiz fica em posição secundária dentro da festa que ajudou a construir.


A discussão ganhou corpo com os cachês milionários pagos por algumas prefeituras nordestinas a nomes do sertanejo. Na Bahia, levantamento do colunista Carlos Madeiro, do UOL, feito a partir do Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público da Bahia, apontou Gusttavo Lima com cachê de R$ 1,1 milhão, Wesley Safadão com R$ 1 milhão, Luan Santana, Victor & Leo, além de Ana Castela e Nattan com R$ 700 mil. O mesmo levantamento informou que artistas históricos do São João, como Alceu Valença, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, apareciam com valores máximos de R$ 250 mil. (noticias.uol.com.br)


Em Itabuna, no sul da Bahia, a Folha de S.Paulo informou que contratos foram questionados e que o município gastaria R$ 1,5 milhão com Gusttavo Lima no Itapedro 2026, sendo R$ 995 mil com recursos de emenda. A reportagem também registrou a posição da gestão municipal, que afirmou não interferir no cachê das atrações e declarou que os valores eram compatíveis com os cobrados em outras cidades. (www1.folha.uol.com.br)


Em Irecê, no centro-norte baiano, a Folha de S.Paulo informou que o Ministério Público acionou o Tribunal de Contas dos Municípios para analisar contratos da festa junina, com gasto previsto de R$ 11,4 milhões em cachês, valor superior a um terço do orçamento anual da Cultura. A reportagem ouviu a gestão municipal, que afirmou que os gastos estavam sendo executados com responsabilidade e transparência. (www1.folha.uol.com.br)


Ainda em Irecê, o portal Acorda Cidade informou que a Prefeitura anunciou Wesley Safadão para o São João de 2026, com cachê acima de R$ 1 milhão, superior ao teto recomendado pela União dos Municípios da Bahia, de R$ 700 mil. (acordacidade.com.br)


Em Caculé, no sudoeste da Bahia, a Folha de S.Paulo informou que o município havia declarado situação de emergência em março, após fortes chuvas, e preparava uma festa de São João com show da dupla Zé Neto & Cristiano por R$ 905 mil, valor equivalente a um quarto do orçamento anual da Cultura, com recursos de emenda parlamentar. (www1.folha.uol.com.br)


Em Pernambuco, Petrolina, no Sertão do São Francisco, também entrou na lista dos grandes cachês. O Alô Alô Bahia informou, com base em valores publicados no Diário Oficial do Município, que Gusttavo Lima recebeu R$ 1,5 milhão no São João 2026. A mesma lista trouxe Ivete Sangalo por R$ 1 milhão, Leonardo por R$ 950 mil, Natanzinho Lima e Simone Mendes por R$ 850 mil cada, Xand Avião por R$ 800 mil e Matheus & Kauan por R$ 700 mil. Entre artistas mais associados ao forró, Limão com Mel apareceu com R$ 350 mil, Jonas Esticado com R$ 300 mil e Eric Land com R$ 300 mil. (aloalobahia.com)


Em Surubim, no Agreste pernambucano, o caso ganhou repercussão depois que Gusttavo Lima cancelou pela segunda vez a apresentação contratada para o São João. Segundo o Poder360, a Prefeitura havia contratado o cantor por R$ 1,353 milhão. O episódio levou a gestão municipal a cobrar publicamente a devolução do dinheiro pago pela apresentação não realizada. (poder360.com.br)


Em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, a programação também teve cachês elevados para atrações nacionais. Reportagem da Folhapress, republicada pelo Diário de Cuiabá, informou Wesley Safadão com R$ 1,5 milhão, Nattan com R$ 900 mil, Belo com R$ 800 mil, Matheus & Kauan com R$ 700 mil, Léo Santana com R$ 650 mil e Claudia Leitte com R$ 600 mil. (diariodecuiaba.com.br)


Em Araripina, no Sertão pernambucano, o LeiaJá informou que Gusttavo Lima e Wesley Safadão lideraram os gastos do São João 2026, com cachês de R$ 1,5 milhão cada, segundo o Painel de Transparência dos Festejos Juninos do MPPE. (leiaja.com)


O Painel de Transparência do MP-BA informou que, até 12 de junho de 2026, 410 municípios baianos e o Governo do Estado haviam enviado dados sobre os festejos juninos. Os registros somavam mais de R$ 615 milhões em recursos públicos, 4.393 apresentações e 2.115 artistas. O painel reúne informações sobre artistas contratados, valores dos cachês, fontes dos recursos e programação das apresentações. (mpba.mp.br)


Esses números mostram uma hierarquia. No alto da lista estão artistas com grande presença nacional, escritórios fortes e alto poder de negociação. Abaixo, aparecem trios pé-de-serra, sanfoneiros/as, zabumbeiros/as, cantadores/as, bandas locais e artistas que sustentam a linguagem do São João em bairros, distritos, comunidades rurais, escolas, associações e palcos menores.


Foi nesse ambiente que Flávio José, um dos nomes mais respeitados do forró, tornou pública sua insatisfação após a recomendação de redução de cachê na Bahia. Segundo o UOL, o artista cobrava R$ 350 mil por apresentação, valor questionado pelo MP-BA por representar aumento de 40% em relação a 2025. Em manifestação pública, ele criticou o tratamento desigual: “Enquanto outros artistas que nada têm a ver com forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro”, afirmou. (noticias.uol.com.br)


A fala viralizou porque encontrou uma ferida já aberta. Flávio José não estava sozinho. Santanna, o Cantador, e Flávio Leandro também apareceram entre os artistas que se posicionaram publicamente em defesa do forró e da cultura nordestina, segundo registro do UOL. (noticias.uol.com.br)


A cantora Iranilda Santana, a Deusa do Forró, coordenadora do Fórum do Forró de Raiz, também tem denunciado a perda de espaço do ritmo nas programações juninas. Em vídeo que circulou no Instagram, ela afirmou: “Tem padre, tem pastor, tem tudo no mundo e o forró é minoria”. A frase resume uma percepção comum entre artistas de raiz: o São João passou a abrigar muitas atrações, mas nem sempre coloca o forró no centro da festa. (instagram.com)


Defender o forró de raiz não significa fechar o São João para outros ritmos. O Nordeste produz mistura, invenção e diálogo musical o ano inteiro. A cobrança é outra: quando uma festa é financiada com dinheiro público, usa símbolos juninos, movimenta a memória nordestina e se apresenta como tradição, o forró precisa ter prioridade real. Prioridade no orçamento. Prioridade nos horários. Prioridade nos palcos principais. Prioridade na comunicação oficial. Prioridade na contratação de artistas locais e regionais.


O forró não é enfeite de programação. Também não pode ser tratado como abertura de noite antes da chegada da “atração principal”. As Matrizes Tradicionais do Forró foram reconhecidas pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 9 de dezembro de 2021, inscritas no Livro de Registro das Formas de Expressão. O Plano de Salvaguarda do Iphan aponta a necessidade de gestão compartilhada, democrática e inclusiva entre detentores/as, poder público, parceiros e sociedade. (bibliotecadigital.iphan.gov.br)


Quando uma prefeitura investe milhões em uma festa junina e paga valores muito menores aos artistas ligados ao forró, ela dá um recado por meio do orçamento. O contrato mostra quem a gestão considera prioridade. O horário do show mostra quem recebe visibilidade. O tamanho do palco mostra quem será lembrado pelo público e pela imprensa.


Também existe uma questão econômica que precisa ser colocada. Quando o poder público contrata artistas locais e regionais, o dinheiro tende a circular no próprio território. O cachê paga músicos/as, técnicos/as de som, roadies, motoristas, produtores/as, costureiras, artesãos/ãs, equipes de alimentação, hospedagem, transporte e pequenos serviços. Parte desse recurso volta para a cidade em consumo, trabalho e renda. A festa fortalece a cadeia cultural local e ajuda artistas a seguirem trabalhando depois que junho acaba.


Quando a maior parte do orçamento vai para atrações milionárias de fora ou para grandes escritórios, uma parte importante desse dinheiro sai rapidamente do município. O comércio local pode ganhar com o movimento da festa, mas a cadeia artística da cidade fica com pouco. O trio pé-de-serra toca por valor baixo. A banda local entra em horário ruim. O sanfoneiro conhecido na região não recebe estrutura. A cultura que sustenta a identidade da festa continua trabalhando com sobra de orçamento.


Esse ponto precisa entrar na prestação de contas. Não basta dizer que a festa atrai turistas. É preciso mostrar quem recebeu, quanto recebeu, de onde veio o recurso, quantos artistas locais foram contratados, quais horários ocuparam, quais palcos receberam e que parte do investimento ficou na economia cultural do próprio território.


A fiscalização dos Ministérios Públicos é necessária quando há suspeita de sobrepreço, falta de transparência ou aumento sem justificativa. O controle do dinheiro público protege a sociedade. Mas a análise dos contratos precisa olhar também para a política cultural que aparece por trás dos números. Um cachê de R$ 350 mil para um forrozeiro histórico chama atenção quando, no mesmo ciclo junino, artistas de outros segmentos aparecem com R$ 1 milhão, R$ 1,1 milhão ou R$ 1,5 milhão. A pergunta é direta: por que alguns cachês altos são tratados como investimento turístico e outros viram alvo imediato de contestação?


Cada prefeitura deveria informar, quantos artistas locais e regionais contratou, quanto pagou a cada um, em quais palcos eles se apresentaram e em quais horários. Esses dados mostram se o São João está fortalecendo a cultura do próprio território ou apenas comprando grandes atrações para alguns dias de programação.


Também é preciso medir o que fica na cidade depois da festa. Quando o recurso público chega aos artistas locais, ele paga ensaio, transporte, figurino, técnico/a de som, músico/a acompanhante, alimentação, hospedagem, artesanato, costura, produção e outros serviços próximos. Essa circulação ajuda a manter trabalho cultural fora do mês de junho.


O São João anunciado como tradição nordestina precisa provar essa prioridade no orçamento. Forró de raiz não se valoriza com homenagem de palco. Valoriza-se com contrato justo, bom horário, estrutura adequada, divulgação oficial e participação dos/as artistas da região nas decisões sobre a festa.

Comentários


bottom of page