Crianças e adolescentes de uma quadrilha nos abordaram na estrada da Paraíba para pedir ajuda
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Durante o Esquenta do Viralizando o Nordeste, nós paramos em um posto de gasolina em Pirpiri, distrito de Guarabira, no Brejo paraibano. Era para ser uma parada comum de viagem: abastecer, tomar água, esticar as pernas e seguir para a próxima cidade.
Mas foi melhor que podíamos imaginar, poi foi alí que encontramos um grupo de crianças e adolescentes da Quadrilha Junina Danado de Bom. Eles estavam uniformizados e conversavam com motoristas e passageiros para pedir contribuição.
Miguel e Isabelle falaram com a gente em nome dos demais. Explicaram que o grupo precisava de apoio financeiro para comprar materiais e garantir presença nas apresentações do ciclo junino. O dinheiro ajudaria na organização da quadrilha, com figurino, transporte, alimentação, inscrição e ensaios.
Não pensamos duas vezes. Ajudamos com o valor que era possível naquele momento.
O grupo foi muito simpático e a conversa continuou por alguns minutos. Eles quiseram saber de onde vínhamos, e nós falamos um pouco sobre o Viralizando o Nordeste. Fizeram perguntas sobre o projeto e até compartilharam a internet dos próprios celulares para que pudéssemos mostrar nossas redes. Ali mesmo, começaram a nos seguir. Pelo jeito, compartilharam a página com muita gente, porque hoje temos muitos seguidores e seguidoras em comum.
O mês de junho ainda nem havia começado, mas estar ali com aquelas crianças e adolescentes, organizados em torno de uma atividade cultural, levou a gente direto para o universo das festas juninas. A cena fez lembrar uma parte boa da nossa infância: as fogueiras na frente das casas, o rosto pintado, os casamentos de quadrilha, a batata-doce assando na brasa e tantas outras lembranças que fazem desse período uma das marcas mais fortes da vida no Nordeste.

A Danado de Bom, de Pirpiri para o ciclo junino
Depois daquele encontro, fomos procurar mais informações sobre a Danado de Bom. Os registros localizados apresentam o grupo como uma quadrilha junina comunitária vinculada a Pirpiri, em Guarabira, no Brejo paraibano. A quadrilha aparece em divulgações recentes do ciclo junino, em apresentações locais e em atividades ligadas ao circuito de quadrilhas da região.
Um desses registros mostra um momento importante para o grupo: pela primeira vez, a Danado de Bom participou da Etapa Brejo e conquistou o 6º lugar. A própria quadrilha celebrou o resultado como uma conquista coletiva, dedicada aos/às dançarinos/as, à produção, aos apoiadores/as e à comunidade de Pirpiri. Para um grupo que saiu da zona rural para se apresentar em um palco maior, a colocação virou motivo de orgulho e mostrou a força cultural do território.
A história completa da Danado de Bom ainda merece ser contada com a escuta dos/as brincantes, coordenadores/as, famílias e moradores/as de Pirpiri. O que já aparece nos registros públicos e na conversa do posto mostra um grupo ativo, ligado à juventude e ao esforço de representar sua comunidade nos festejos juninos.
A Danado de Bom reúne dança, música, marcação, figurino, teatro popular e participação comunitária. Também carrega uma função importante: aproximar crianças e adolescentes da cultura local. Uma quadrilha ensina ritmo, convivência, horário, responsabilidade, cuidado, respeito ao coletivo e coragem para se apresentar em público.
Foi isso que chamou atenção naquele posto. A garotada não estava apenas pedindo uma contribuição. Estava falando de uma atividade que organiza gente, envolve família e leva o nome de Pirpiri para outros espaços.
Festas juninas: Santo Antônio, São João e São Pedro
Quando falamos em São João, muitas vezes usamos o nome do santo para falar de todo o período junino. Mas as festas de junho envolvem três santos populares do catolicismo: Santo Antônio, São João e São Pedro. A Fundação Joaquim Nabuco registra que o ciclo junino consagra esses três santos e envolve danças, comidas típicas, adivinhações, crendices, fé e animação popular.
Santo Antônio, celebrado em 13 de junho, aparece muito ligado às simpatias, às promessas e aos pedidos de casamento. São João, celebrado em 24 de junho, está associado às fogueiras, aos encontros de rua, às comidas e às brincadeiras. São Pedro, celebrado em 29 de junho, também tem devoções fortes, especialmente em comunidades de pescadores/as e cidades litorâneas.

A fogueira, a infância e os costumes de junho
Em muitos lugares do Nordeste, a fogueira não era só enfeite. Era ponto de encontro. Crianças ficavam em volta, famílias conversavam, vizinhos/as chegavam com comida, alguém trazia milho, alguém assava batata e os mais velhos contavam histórias.
Também havia os batizados de fogueira, quando crianças e adultos firmavam compadrio em volta das chamas. Tinha quem colocasse brasa dentro da água para observar formas e fazer adivinhações. Tinha simpatia para casamento, promessa para Santo Antônio, pedido feito em silêncio e brincadeira ensinada pelos mais velhos.
Esses costumes fazem parte da força das festas juninas. Nem tudo está no palco. Muita coisa acontece na calçada, no quintal, na cozinha, na rua pequena, na escola e na praça do interior.
O São João que movimenta milhões
As festas juninas também têm grande peso econômico. Segundo o Ministério do Turismo, em 2023 os festejos juninos deveriam mobilizar mais de 26,2 milhões de pessoas e movimentar cerca de R$ 6 bilhões pelo país. Só Caruaru, em Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba, tinham estimativa de mais de R$ 1,1 bilhão em arrecadação e 5,7 milhões de pessoas nos dias de festa.
Essa movimentação aparece em hotéis, pousadas, bares, restaurantes, transporte, comércio, artesanato, costura, som, iluminação, decoração, fotografia, audiovisual, segurança, limpeza e trabalho temporário.
Mas a força do período junino também está nos festejos comunitários. Está na escola que monta arraial, na associação que organiza quadrilha, no distrito que prepara festa, na família que acende fogueira e no grupo de jovens que passa semanas ensaiando.
É nesse ponto que a Danado de Bom ajuda a enxergar melhor o tamanho da cultura junina. O São João movimenta multidões nas grandes cidades, mas também se mantém vivo nos grupos comunitários que trabalham durante semanas para apresentar uma quadrilha.
A quadrilha como escola de cultura
As festas juninas chegaram ao Brasil no período colonial, trazidas pelos portugueses, e ganharam novas formas com a presença de povos indígenas, populações negras, comunidades rurais e grupos populares. No Nordeste, essa mistura se tornou uma das expressões culturais mais fortes do calendário anual.
A quadrilha é uma das imagens mais conhecidas desse período. Sua origem se relaciona às danças europeias de salão, mas no Brasil ela ganhou outro corpo, com casamento matuto, marcador, humor, música regional, roupa colorida, passos coletivos e participação popular, geralmente acompanhada por zabumba, triângulo e sanfona.
Nas quadrilhas contemporâneas, esse repertório ganhou figurinos mais elaborados, temas anuais, cenografia, trilhas e apresentações em festivais. A Danado de Bom aparece nesse universo das quadrilhas comunitárias que unem tradição, juventude e espetáculo popular. Há registros que relacionam o grupo a ensaios, apresentações, festivais, novo figurino e participação no calendário junino paraibano.
Para crianças e adolescentes, participar de uma quadrilha pode ser uma experiência importante de formação. Eles/as aprendem a ensaiar, falar com o público, cuidar do corpo, ouvir orientação, conviver com diferenças e representar o lugar onde vivem.
Essa formação não acontece em sala fechada. Acontece no ensaio, na costura da roupa, na música, na conversa com o marcador, na espera da apresentação e no apoio das famílias.

Forró e quadrilhas são cultura brasileira
O forró também faz parte dessa história. As Matrizes Tradicionais do Forró foram reconhecidas pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 9 de dezembro de 2021 e inscritas no Livro de Registro das Formas de Expressão.
As festas juninas foram reconhecidas como manifestação da cultura nacional pela Lei nº 14.555, de 2023. Em 2024, a Lei nº 14.900 incluiu também as quadrilhas juninas nesse reconhecimento.
Esse reconhecimento oficial confirma algo que o povo nordestino já sabe na prática. Festa junina é cultura, trabalho, fé, comida, dança, música, infância, juventude, encontro e continuidade.
O olhar do Viralizando o Nordeste
No Esquenta do Viralizando o Nordeste, a passagem por Pernambuco, Paraíba e Bahia serviu como etapa de preparação para a travessia maior pelos nove estados nordestinos.
A parada em Pirpiri não estava marcada. Aconteceu no ritmo da estrada. E talvez por isso tenha mostrado uma cena tão verdadeira: crianças e adolescentes falando da própria quadrilha, interessados em conhecer o projeto e dispostos a manter viva uma atividade cultural da comunidade.
As festas juninas seguem fortes porque o povo prepara, dança, toca, cozinha, costura, reza, acende fogueira, reúne vizinhos/as e ensina às crianças o valor de pertencer a uma cultura.
Na estrada da Paraíba, a Danado de Bom nos lembrou isso com simpatia. Por isso, deixamos nosso agradecimento pela oportunidade de conhecer vocês e nossos parabéns pela conquista do 6º lugar na Etapa Brejo. Esperamos passar por Pirpiri na próxima etapa do Viralizando o Nordeste e conhecer a Danado de Bom com mais calma, de perto, no tempo da comunidade.
Até breve.

Como é gratificante saber que nossa tradição e alegria contagia quem nos conhece .. que matéria lindaaa ❤️
amamos!!
😍😍