Brasil quer restaurar 12 milhões de hectares, mas sem fauna a flora não prospera
- 22 de jun.
- 7 min de leitura

Alerta da Proteção Animal Mundial sobre restauração ambiental dialoga com cenas vistas pelo Viralizando o Nordeste nas estradas e reforça por que a fauna precisa entrar nos projetos de recuperação da vegetação nativa.
O Brasil assumiu a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. O número faz parte do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, o Planaveg, política conduzida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para ampliar a recuperação de áreas degradadas no país.
A meta voltou ao debate depois de uma publicação da Proteção Animal Mundial, @protecaoanimalmundial, alertar que muitos projetos de restauração ainda deixam a fauna fora do planejamento. A organização lançou o relatório “Incorporação de Fauna em Projetos de Restauração Florestal nos Biomas Brasileiros”, que analisou 17 programas e editais públicos e privados, entre 2024 e 2025, somando mais de R$ 685 milhões. Segundo a entidade, a fauna segue praticamente invisível na maioria dessas iniciativas.
Plantar árvore é parte do caminho, mas não resolve tudo. Em muitos ambientes, aves, morcegos, mamíferos, insetos, répteis e outros animais espalham sementes, polinizam plantas e ajudam a vegetação a se renovar. Quando esses bichos desaparecem, a área pode até ganhar mudas, mas perde diversidade e força ecológica. Sem fauna, a flora não prospera.
No Nordeste, esse debate passa pela Caatinga, pela Mata Atlântica, pelos manguezais, pelos brejos, pelas matas ciliares e pelas rodovias que cortam áreas rurais, comunidades, rios, açudes e fragmentos de vegetação. Durante o Esquenta do Viralizando o Nordeste, essa pauta apareceu na estrada, em animais mortos no acostamento, em estruturas de travessia para fauna e em uma cena que nos surpreendeu na Paraíba.
Na região de Guarabira, na Paraíba, nos deparamos com uma cena pouco casual. Era noite e o fluxo de caminhões era intenso quando, de repente, vi um animal cruzando a pista.
Na hora, achei parecido demais com um jacaré. Mesmo assim, hesitei em afirmar que fosse. Comentei que tinha visto um lagarto grande atravessando a estrada. A semelhança com um jacaré era tanta que brinquei que só não dizia isso porque poderiam pensar que eu estava delirando. Até porque, onde já se viu um jacaré cruzando uma estrada em plena Paraíba?
A Dorinha, prima de Maria que estava no carro com agente riu e , explicou que poderia ser um jacaré, sim. Segundo ela, moradores da região tinha começado a criavam esses animais e que, com as chuvas fortes, alguns teriam escapado e se espalhado por áreas próximas. Fiquei aliviado com o fato de saber que eu não estava alucinando, mas fiquei admirado e incomodado com a situação. Um pouco pela surpresa e mais pelo risco. O animal Poderia ser atropelado.
Na mesma viagem, entre trechos de Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, vimos vários animais mortos nas pistas e nos acostamentos. Alguns eram silvestres. Outros eram animais domésticos ou de criação. Poucos foram os pontos em que vimos estruturas de travessia para fauna.
Essas estruturas são chamadas de passagens de fauna e têm extrema importância para a segurança dos animais e das pessoas. Elas podem ser aéreas, subterrâneas ou construídas sobre a rodovia, conforme o tipo de estrada, o ambiente e os animais que vivem na região. Quando são bem planejadas, ajudam a reduzir atropelamentos, evitam acidentes e mantêm a circulação dos bichos entre áreas de vegetação.
O Nordeste precisa estar nessa conta
A recuperação da vegetação nativa precisa ser pensada a partir dos territórios. No Nordeste, isso significa olhar para ambientes muito diferentes entre si, como Caatinga, Mata Atlântica, manguezais, brejos, matas ciliares, áreas rurais, cidades e rodovias onde animais continuam tentando atravessar.
A Caatinga, bioma predominante na região, foi a terceira formação natural com maior área desmatada no Brasil em 2024. Segundo o MapBiomas, foram 174.511 hectares de vegetação nativa perdida na Caatinga, o equivalente a 14% da área desmatada no país naquele ano.
Esse dado mostra que a recuperação da vegetação nativa precisa chegar aos territórios nordestinos com atenção ao solo, à água, às plantas nativas, aos animais, às comunidades rurais, aos povos indígenas, aos quilombos, às áreas costeiras e às cidades onde o desmatamento, a especulação imobiliária, a poluição, as obras sem planejamento e a perda de vegetação nativa continuam avançando.
Na Caatinga, na Mata Atlântica nordestina e nos manguezais, a recuperação da vegetação nativa é necessária, mas precisa vir acompanhada de proteção ao que ainda existe. Além de plantar espécies nativas, é preciso preservar a flora que resiste, garantir a circulação da fauna, reduzir atropelamentos, proteger áreas de reprodução e enfrentar o desmatamento, a especulação imobiliária, a poluição, a ocupação irregular e as obras que seguem destruindo esses ambientes. Sem isso, a restauração fica incompleta.
Publicação sobre fauna e restauração movimenta debate nas redes sociais
A postagem feita no perfil do Instagram da Proteção Animal Mundial, @protecaoanimalmundial, provocou forte reação entre internautas. Muitas pessoas concordaram com o alerta apresentado pela organização. Outras trouxeram dúvidas, exemplos pessoais e preocupações que ajudam a ampliar o debate e mostram que o tema ainda desperta diferentes percepções na sociedade.
A internauta Adriana Cunha, @adricunha_22, resumiu a preocupação central ao comentar que sem animais não existe floresta saudável. A frase dialoga diretamente com o alerta da organização. A restauração não pode ser medida apenas pela quantidade de mudas plantadas. Uma área em recuperação precisa de aves, morcegos, insetos, mamíferos, répteis, anfíbios e outros bichos circulando, espalhando sementes, polinizando plantas e ajudando o ambiente a se recompor.
O perfil Mel Apis Life, @mel_apislife_, chamou atenção para as abelhas, lembrando o papel dos polinizadores na recuperação dos ambientes. A observação é importante para o Nordeste, onde agricultura familiar, Caatinga, manguezais e matas ciliares dependem da relação entre insetos, flores, água e alimento.
Irineu Staub, @irineustaub, levou a discussão para o campo prático ao defender o plantio de espécies nativas, melíferas e frutíferas, especialmente perto de rios e lagos. Essa escolha influencia diretamente a fauna, porque uma muda pode alimentar animais, proteger o solo, recompor margens de rios e criar condições para que o território siga vivo depois do plantio.
Na Bahia, o perfil Sítio Planta Mãe, @sitioplantamae, trouxe uma preocupação sobre pressões em áreas de Mata Atlântica. O comentário reforça uma contradição comum na pauta ambiental. O país fala em restaurar milhões de hectares, mas muitos territórios seguem convivendo com supressão de vegetação, fiscalização frágil e disputas pelo uso da terra. Restaurar áreas degradadas é necessário, mas proteger o que ainda existe precisa caminhar junto.
Em outro comentário, Rogério Vianna, @rogerio.vianna.716, mencionou o desaparecimento de girinos em áreas de mata e água. A observação lembra que a fauna não aparece apenas nos animais grandes ou mais visíveis. Anfíbios, insetos, pequenos animais e polinizadores também indicam se um ambiente está saudável ou em desequilíbrio.
Viviane Weru, @vivianeweru, resumiu a pauta em poucas palavras ao afirmar que sem bichos não tem floresta. A frase funciona como síntese popular do debate aberto pela Proteção Animal Mundial e pela experiência do Viralizando nas estradas. Árvore, bicho, água, solo, semente, inseto e comunidade fazem parte da mesma conversa.
Animais na pista também são risco para gente
Durante o Esquenta, a presença de animais nas rodovias apareceu de várias formas. Em um trecho noturno, indo em direção a Pernambuco, um jumento entrou na estrada e por pouco não houve acidente. Ninguém se feriu e o animal não foi atropelado, mas a cena mostrou um problema comum em muitas rodovias.
Animais soltos na pista colocam em risco motoristas, passageiros, motociclistas e os próprios bichos. Na Paraíba, dados da Polícia Rodoviária Federal divulgados pelo jornal A União apontaram que a presença de animais soltos em rodovias causou 60 ocorrências em 2024, com cinco mortes.
O caso dos jumentos precisa ser tratado com cuidado. No Nordeste, eles têm uma história ligada ao trabalho rural, ao transporte de cargas, à feira, à roça, à água, à lenha e à vida de muitas famílias. Quando aparecem abandonados ou soltos na pista, representam risco. Também revelam falta de manejo, abandono e ausência de política pública para proteger animais e pessoas.
Passagens de fauna precisam virar planejamento
As passagens de fauna precisam fazer parte do planejamento das rodovias. Para funcionar, elas dependem de estudo das espécies que circulam na região, sinalização adequada, cercas direcionadoras, redutores de velocidade, monitoramento e participação das comunidades locais.
Uma passagem de fauna sem planejamento pode funcionar mal. O animal precisa ser conduzido para a travessia segura. Por isso, a solução exige engenharia, biologia, educação ambiental, fiscalização e gestão pública.
Nas estradas, a diferença entre vida e morte pode estar em uma placa, uma cerca, um redutor de velocidade, uma passagem aérea entre árvores, um túnel bem localizado ou uma política de cuidado com animais abandonados.
A estrada passa por territórios vivos
A cena do jacaré cruzando a pista na Paraíba mostrou, na prática, uma coisa simples: a estrada corta áreas onde animais vivem, circulam, buscam água, alimento e abrigo. Quando um animal atravessa a pista, ele não está invadindo a estrada. Na maioria das vezes, está tentando seguir um caminho que já fazia parte da sua área de circulação. O problema é que esse caminho agora passa pelo asfalto, por carros, motos, ônibus e caminhões.
As nossas rotas de deslocamento, trabalho, transporte e lazer não podem continuar sendo planejadas como se só os seres humanos precisassem circular. Outros seres vivos também têm caminhos, áreas de reprodução, pontos de alimentação e rotas de sobrevivência. Ignorar isso é tratar a estrada como se ela estivesse acima do território que atravessa.
Restaurar também é proteger o que ainda existe
A restauração da vegetação nativa é necessária, mas precisa ser acompanhada de proteção real aos ambientes que ainda existem. No Nordeste, isso significa enfrentar o desmatamento na Caatinga, a supressão de Mata Atlântica, a destruição de manguezais, a poluição dos rios, a ocupação irregular e as obras que cortam áreas de circulação animal sem prever travessias seguras.
O alerta da Proteção Animal Mundial ajuda a colocar a fauna no centro dessa discussão. Uma área restaurada precisa de planta nativa, água, solo vivo, polinizadores, dispersores de sementes e caminhos seguros para os animais circularem. Quando a fauna fica fora do planejamento, a restauração perde parte do que deveria recuperar.
A experiência do Viralizando o Nordeste nas estradas mostrou essa pauta no chão: animais mortos no acostamento, poucos pontos com passagens de fauna e um animal atravessando a pista em meio aos caminhões. O Brasil quer restaurar 12 milhões de hectares. Para essa meta ter força, precisa olhar para a vida que já existe nos territórios e para os caminhos que ela precisa continuar fazendo.



Comentários