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Na Ponta dos Seixas, o Viralizando o Nordeste encontra geografia, pertencimento e o Brasil que começa pela Paraíba

  • 17 de mai.
  • 6 min de leitura


Em João Pessoa, a conversa com o geohistoriador Cássio Marques e o reencontro com o amigo e guia local Braulio Oliveira abriram uma leitura territorial sobre a Ponta dos Seixas, o ponto mais oriental das Américas.


A estrada do Viralizando o Nordeste chegou à Paraíba encontrando aquilo que o projeto busca desde sua origem: território, memória, gente, conversa e pensamento vivo nascido do chão. Em João Pessoa, a passagem pela Ponta dos Seixas não foi somente visita a um dos lugares mais conhecidos do litoral paraibano. Foi uma aula aberta de geografia, história, pertencimento e leitura do Brasil a partir do Nordeste.


A visita aconteceu ao lado de Braulio Oliveira, morador da Paraíba e antigo conhecido de Léo Duarte desde os tempos de trabalho educativo em São Bernardo do Campo, no projeto Meninos e Meninas de Rua. Foi Braulio quem apresentou a equipe a Cássio Marques, geohistoriador, escritor e pesquisador apaixonado pelos nomes, caminhos e sentidos dos municípios brasileiros.


Ali, diante do mar, com o Atlântico aberto à frente, a conversa ganhou uma força simbólica. A Ponta dos Seixas é apresentada por Cássio como o ponto mais oriental das Américas, o extremo leste do Brasil, o lugar onde nenhuma outra porção continental do país está tão próxima da África. A partir dali, ele explica os extremos do território brasileiro e lembra que o Brasil não pode ser compreendido apenas por seus centros de poder. Há uma geografia profunda que começa nas bordas, nas pontas, nas margens e nos caminhos pouco escutados.


Para o Viralizando o Nordeste, essa passagem tem grande importância. O projeto não percorre o Nordeste atrás de simples paisagens. A proposta é caminhar por lugares onde a história se mistura à vida cotidiana, onde a memória aparece na fala das pessoas e onde o território ajuda a explicar o país. Na Ponta dos Seixas, a Paraíba se apresenta como porta atlântica, como chão de encontro entre geografia, colonização, resistência indígena, litoral, arrecifes e nomes que guardam camadas antigas da formação brasileira.


Cássio conduziu a conversa como quem transforma o território em sala de aula. Ao falar da Paraíba, lembrou que o nome do estado está ligado ao rio que marcou a ocupação colonial da região. Segundo ele, em tupi, Paraíba carrega o sentido de “rio ruim” ou “rio de difícil navegação”, referência às dificuldades encontradas pelos colonizadores ao tentar avançar pelo território. A história da antiga Filipéia de Nossa Senhora das Neves, depois chamada Frederica durante o período holandês e, por fim, Paraíba, apareceu na conversa como exemplo de como os nomes revelam disputas de poder, presença europeia, marcas indígenas e processos históricos sobrepostos.


Esse olhar sobre os nomes é parte central da pesquisa de Cássio. Ele se dedica ao estudo dos topônimos, os nomes geográficos dos lugares. Seu interesse passa pelos 5.570 municípios brasileiros e pelas perguntas que cada nome carrega: por que uma cidade se chama assim? Que povo deixou essa palavra? Que santo, rio, árvore, liderança, lenda, memória ou disputa política permanece escondida em uma placa na estrada?


Na conversa, Cássio contou que já percorreu todos os 223 municípios da Paraíba e que prepara uma obra sobre os topônimos paraibanos, dividindo o estado em regiões. Também falou de sua caminhada por outros estados, como Rio Grande do Norte e Pernambuco, e do desejo de seguir pelo Brasil registrando os nomes e as histórias das cidades.


Essa investigação dialoga diretamente com a metodologia do Viralizando o Nordeste. Nome de cidade não é enfeite de mapa. Nome carrega pertencimento. Pode guardar língua indígena, devoção católica, homenagem política, memória de famílias, marcas de colonização, lendas locais e formas populares de entender o território. Quando um pesquisador se dedica a escutar os nomes, ele também escuta a história social escondida nos caminhos.


A conversa também passou pelo Farol do Cabo Branco, apresentado por Cássio como um dos grandes marcos simbólicos de João Pessoa. Segundo ele, o farol funciona como referência visual para quem chega à cidade e está ligado à sinalização do litoral, dos arrecifes e da região da Ponta dos Seixas. O farol, nesse contexto, deixa de ser apenas ponto turístico. Torna-se sinal de orientação, memória espacial e presença paraibana no extremo leste do país.


Outro momento importante da conversa foi a aproximação entre a trajetória de Cássio e o pensamento de Paulo Freire. Ao comentar a passagem da equipe pela Paraíba, ele destacou que Paulo Freire segue necessário em um tempo marcado pela padronização digital e pela homogeneização das experiências. Para Cássio, a força freireana está justamente na valorização da realidade local, da significância do lugar e da leitura concreta de cada comunidade.


Essa reflexão toca o centro do Viralizando o Nordeste. A expedição nasce da recusa em aceitar um Nordeste reduzido a estereótipos. Cada parada precisa ser lida a partir de sua realidade. Cada comunidade carrega perguntas próprias. Cada território pede uma escuta específica. Paulo Freire aparece, então, como método vivo: não chegar impondo uma narrativa pronta, mas perguntar, observar, conviver e aprender com as pessoas que conhecem o chão por dentro.


A presença de Braulio Oliveira nesse trecho da rota também deu à Paraíba uma camada afetiva. Em conversa com Maria da Cruz, Braulio contou que nasceu em São Paulo, mas encontrou na Paraíba uma possibilidade de vida que buscava havia tempo. Filho de pais sertanejos, ele fez o caminho inverso de muitos nordestinos que migraram para o Sudeste. Veio para a Paraíba, estudou, formou família, voltou por um período a São Paulo e depois retornou ao estado com o desejo de permanecer.


Sua fala desmonta uma imagem repetida por muito tempo no imaginário brasileiro: a ideia de que sair do Nordeste seria sempre avanço e voltar seria perda. Braulio narra outro movimento. Para ele, a Paraíba oferece qualidade de vida, contato com a natureza, praias, clima, alimentação, vínculos familiares e uma experiência educativa importante para seus filhos. Ao falar da escola, destaca que as crianças estudam em tempo integral, aprendem Libras, inglês e outras disciplinas, reconhecendo desafios, mas também valorizando o que encontra no território onde vive.


Esse depoimento interessa ao projeto porque mostra o Nordeste como escolha, não como falta. A Paraíba aparece como lugar de futuro, criação familiar, formação dos filhos e reencontro com raízes. Braulio fala das praias, do contato com os peixes, da água limpa, dos pássaros pela manhã, do calor, das festas e da cultura local. Sua narrativa não romantiza a vida. Ela parte da experiência concreta de quem decidiu voltar e ficar.


Há também uma memória forte entre Braulio e Léo Duarte. Os dois se conhecem desde a adolescência de Braulio, no contexto de um projeto educativo em São Bernardo do Campo. Léo era educador; Braulio, educando. Na conversa, os dois retomam esse vínculo com emoção, lembrando que a educação popular deixa marcas que o tempo não apaga. O reencontro na Paraíba mostra como as trajetórias sociais se cruzam de novo pela estrada, carregando histórias de cuidado, formação e amizade.


Para o Viralizando o Nordeste, esse tipo de encontro é parte da travessia. A estrada não é feita apenas de deslocamento. Ela também costura tempos. Reencontra pessoas. Aproxima histórias antigas de novos territórios. Abre portas que nenhum roteiro turístico abriria. A presença de Braulio permitiu que a equipe chegasse a Cássio, e a conversa com Cássio abriu uma leitura geográfica e histórica da Paraíba. É assim que o projeto vai se formando: por redes, afetos, indicações, escutas e presença.


A passagem pela Ponta dos Seixas deixa algumas certezas. A primeira é que o Nordeste pensa o Brasil desde seus extremos. A segunda é que geografia não é matéria morta; ela está viva nos nomes, nos caminhos, nos rios, nos faróis, nas praias, nos relatos e nas memórias de quem habita o território. A terceira é que o Viralizando o Nordeste precisa seguir atento a essas vozes que transformam cada parada em campo de aprendizagem.


Cássio Marques, com sua paixão pelos topônimos, ajuda a lembrar que todo nome tem história. Braulio Oliveira, com sua escolha pela Paraíba, ajuda a mostrar que pertencimento também pode ser reconstruído. Léo Duarte e Maria da Cruz, com a escuta aberta, seguem compondo essa cartografia humana que pretende atravessar o Nordeste sem pressa, sem arrogância e sem reproduzir as imagens pequenas que o país tantas vezes jogou sobre a região.


Na Ponta dos Seixas, o Brasil parece começar de novo diante do mar.


E o Viralizando o Nordeste segue pela Paraíba sabendo que cada estrada, cada nome e cada encontro podem revelar uma parte do país que ainda precisa ser melhor escutada.

 
 
 

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